O Carnaval ficou mais triste
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Das agências 
São Paulo - O corpo do carnavalesco Joãosinho Trinta foi enterrado na manhã de ontem no cemitério do Gavião, em São Luís (MA). Ele morreu no último sábado, aos 78 anos, devido a um choque séptico (infecção generalizada) causado por uma série de problemas, como pneumonia e infecção urinária.
O carnavalesco já havia ficado hospitalizado em São Luís em maio e junho. Ele passou a se locomover em cadeira de rodas em 2005, após o segundo acidente vascular cerebral - o primeiro foi em 1997.
Amigos e representantes de escolas de samba lamentaram a morte de Joãosinho Trinta e destacaram sua importância na história do Carnaval brasileiro. ''João sempre foi uma referência, representou uma mudança de conceito no que se refere a Carnaval. Mudou desfile, mudou alegoria, fantasia, mudou tudo. O que o João pregava nos anos 70 e os outros atiravam pedras, hoje em dia as pessoas valorizam e acham bonito'', afirmou o carnavalesco da Unidos da Tijuca, Paulo Barros.
O carnavalesco será homenageado pela Beija-Flor em 2012, afirmou Laíla, diretor de Carnaval e Harmonia da escola e amigo de Joãosinho Trinta há 49 anos. O enredo será o Maranhão. ''A homenagem já estava prevista, mas vamos decidir se faremos alguma alteração. João Trinta foi o grande precursor do carnaval moderno. Foi ele, no Salgueiro, o autor da grande mudança, de tirar destaques do chão, porque abriam muitos buracos na apresentação.''
Amor e fantasia
Nascido João Clemente Jorge Trinta em 23 de novembro de 1933, ele mudou para o Rio em 1951, aos 18 anos, onde primeiro trabalhou como escriturário e depois foi bailarino. Chegou a integrar o quadro de funcionários do Teatro Municipal do Rio. Só 11 anos depois passou a atuar no carnaval, na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro.
Integrava a equipe dos carnavalescos Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, famosa por enredos clássicos da história do samba carioca, como Xica da Silva, de 1963. Joãosinho Trinta era o responsável pelos adereços. Após a saída de Pamplona e Rodrigues da escola, ele assumiu em 1973 a função de carnavalesco. A escola ficou em terceiro lugar, com o enredo ''Eneida, Amor e Fantasia''.
A consagração de Joãosinho começou no ano seguinte, quando o Salgueiro se tornou campeão com o enredo ''O Rei de França na Ilha da Assombração''. Foi o início de uma sequência de cinco títulos consecutivos até 1978. As outras conquistas foram ''O Segredo das Minas do Rei Salomão'', mais uma vez pelo Salgueiro, e Sonhar com Rei dá Leão, Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana, A Criação do Mundo e Segundo a Tradição Nagô, todos pela Beija-Flor, escola de Nilópolis, cidade na Baixada Fluminense, que jamais havia vencido um carnaval.
O luxo da escola, até então muito longe da linha de frente das agremiações tradicionais, surpreendeu. Joãosinho Trinta foi criticado por puristas, que o acusavam de desvirtuar a apresentação das escolas, privilegiando ostentação, em detrimento de tradições carnavalescas. É dessa época sua frase famosa: ''O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual''.
O período foi o auge de Joãosinho Trinta. A partir daí, os títulos escassearam. Ele ainda foi campeão em 1980 e 1983 pela Beija-Flor e em 1997 pela Viradouro, de Niterói, cidade vizinha ao Rio. Dirigiu ainda o carnaval da Acadêmicos da Rocinha, tornando-se campeão em 1989 no grupo 1-D e, no ano seguinte, no 1-C.
Naquele ano, sofreu uma grande decepção, com a derrota do enredo ''Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia'', pela Beija-Flor. Apesar do vice-campeonato, o desfile se tornou um clássico do carnaval, com a apresentação de passistas fantasiados de mendigos e uma imagem do Cristo Redentor coberta, por causa da censura da Igreja. Favorita, a escola perdeu para a Unidos de Vila Isabel.


