Antes, durante o reinado de Momo, o Brasil parecia um país dividido entre a maioria de foliões e os gatos pingados indiferentes à festa.
De alguns anos para cá, porém, a ala dos indiferentes foi engrossada pelos blocos dos insatisfeitos com os rumos tomados pelo carnaval. É comum, por exemplo, ouvir a queixa de que os quatro dias de farra perderam a antiga espontaneidade.
Outros lamentam as mudanças sofridas pelas escolas de samba do Rio, cujos desfiles teriam se transformando em negócio e ôba-ôba de turistas. Esse é o caso do jornalista e pesquisador, José Ramos Tinhorão, um dos mais agudos críticos do carnaval carioca. Ao atender o telefonema da Folha, foi logo disparando: ‘‘Não tenho o que falar sobre o carnaval, o carnaval acabou’’.
Tinhorão é autor de vários livros sobre música popular brasileira, entre eles ‘‘Pequena História da Música Popular – Da Modinha à Canção de Protesto’’, ‘‘Música Popular – Um Tema em Debate’’, ‘‘O Samba agora vai ... a Farsa da Música no Exterior’’, ‘‘História Social da Música Popular Brasileira’’ e ‘‘A Música Popular no Romance Brasileiro’’.
Em várias linhas, abordou o carnaval e sua suposta degeneração ao longo dos anos. Segundo ele, já na década de 30 as escolas de samba cariocas curvavam-se à ditadura de Getúlio Vargas adotando temas ufanistas em seus sambas-enredos com odes a episódios ou personagens representativos da história oficial como Duque de Caxias, Marcílio Dias e a Guerra do Paraguai.
Pouco tempo depois, o Rio ficaria apinhado de escolas, então já financiadas e comandadas por comerciantes, bicheiros e industriais. Os sambistas iam aos poucos sendo relegados a um papel secundário. Mais tarde, o carnaval de rua se oficializava como ‘‘show’’ atraindo as camadas médias da população para os palanques armados pelos governantes, o que corresponderia hoje aos camarotes vips frequentados por celebridades, garotas de programa disfarçadas de modelos e elites endinheiradas.
Com o espírito competitivo que então passaria a vigorar, as diretorias das escolas preocupavam-se sobretudo com as alegorias e tudo o mais que priorizasse a idéia de espetáculo. Na ânsia de vencer as escolas rivais, convocavam-se artistas da seara erudita para colaborar na elaboração de figurinos, fantasias e desenhos. Aos humildes integrantes, cabia vestir os trajes e empurrar as carretas.
Daí em diante, ainda segundo a ótica de Tinhorão, a descaracterização tornaria-se norma no carnaval carioca com a interferência de pessoas estranhas ao meio, profissionalização de compositores e passistas e exigência de luxo nos desfiles da Avenida Presidente Vargas e posteriormente no Sambódromo.
Tinhorão conta que em 1965 escreveu um artigo premonitório de página dupla no Diário Carioca. ‘‘Ele tinha o título ‘Escolas de samba desfilam para a morte com enterro de primeira da arte erudita’’ – lembra. ‘‘Eu fazia alusão aos passos de balé longamente ensaiados nas escolas com bailarinos profissionais. Na época, todos acharam minhas observações exageradas. Ressaltavam as baterias das escolas, que seriam vigorosas. Ora, que bateria. Nas baterias já não ouvimos mais samba, mas marchas. Temos escolas de marcha’’.
Para Tinhorão, o que antes era uma festa popular improvisada cedeu lugar a um espetáculo burocrático – e lucrativo para uns poucos. ‘‘O carnaval está institucionalizado’’ – enfatiza. ‘‘Ele é ainda uma festa herética, mas sem o sentido de religiosidade de suas origens. Em Roma, comemoravam-se as Saturnais com grande algazarra para a glória do deus Saturno. Havia ainda os Bacanais regados a sexo e vinho em homenagem ao deus Baco. Na Idade Média, os napolitanos saíam as ruas fantasiados carregando falos enormes de madeira que tinham o significado da fertilidade. Hoje em dia, o carnaval representa a negação do espírito lúdico. No Brasil, ele é controlado pela mídia televisiva onde até os minutos de intervalo são disputados pelos fabricantes de cerveja’’.
A única ressalva seriam os sujeitos brincalhões que enchem a cara e saem fantasiados nas ruas mexendo com as pessoas, completamente descompromissados com regras e horários. ‘‘Carnaval é esculhambação. E são estes sujeitos que ainda mantêm viva a tradição’’ – resume. De opinião diferente, o pesquisador Haroldo Costa acredita que a folia momesca continua animada em todo o país. Ele acaba de lançar o livro ‘‘Cem Anos de Carnaval’’ pela editora Irmãos Vitale.
‘‘Não vejo decadência no carnaval’’ – diz ele. ‘‘Não sou um otimista militante, mas também não sou crítico com saudosismo rançoso que não quer compreender a característica mutante da festa. O carnaval é o reflexo do que acontece no mundo, no país e na cidade. No Rio, por exemplo, muitas coisas mudaram nas últimas décadas. Nos anos 50, você pegava o bonde na zona sul e ia para o Centro fazendo bagunça. No trajeto, já brincava o carnaval. Hoje não, hoje tem metrô. Não dá para comparar’’.
Costa vê vitalidade na movimentação em torno da folia. Lembra que cerca de 40 blocos carnavalescos sairão este ano na Passarela do Samba, o sambódromo da avenida Marquês do Sapucaí. ‘‘Não se via isso nos anos 80 e 90’’ – salienta. ‘‘Não sei o que houve para surgir tantos blocos. Só o Sovaco de Cristo, que foi o que detonou esse processo, reúne 5 mil pessoas. O interessante é que eles parecem retomar elementos dos cordões dos velhos tempos’’.
Em 1886, os jornais chamavam os cordões de ‘‘grupos de foliões mascarados e provocadores’’. Eles saíam fantasiados, satirizando personalidades. Um mestre com apito comandava tambores, cuíca e reco-reco. Segundo Costa, outro motivo para ver com bons olhos o carnaval carioca poderá ser conferido nos alto-falantes da Sapucaí. ‘‘Teremos uma das melhores safras de sambas-enredo dos últimos anos’’ – anuncia ele.
‘‘A Imperatriz Leopoldinense poderá, inclusive, faturar o tri-campeonato. O Salgueiro e a Portela também estão bem cotados. E a Mangueira já garante destaque só com a presença de Jamelão’’. O lançamento de seu livro ‘‘Cem Anos de Carnaval’’ foi anteontem no Museu da República, no Rio. Em abril, ele publica o volume ‘‘Na Cadência do Samba’’, pela editora Novas Direções.

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