O carisma da notícia
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sexta-feira, 05 de julho de 2002
Roberta Brasil<br> TV Press 
A expansiva Maria Beltrão sabe que não tem o perfil clássico de uma âncora de telejornal. E nem precisa. O jeito franco já rendeu à jornalista do Globonews várias passagens engraçadas no ar, mas parece ter cativado também boa parte da audiência. Prova disso são os frequentes e-mails que ela recebe, com elogios ao seu trabalho no canal a cabo, onde apresenta seis edições do ''Em Cima da Hora'' e contabiliza mais de 530 entrevistas feitas para o ''Almanaque''. Além disso, a jornalista ''flerta'' com a Globo, onde aparece, eventualmente, no ''Bom Dia Brasil'' e em coberturas especiais, como a do Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Em tevê aberta ou por assinatura, Maria Beltrão se destaca pela espontaneidade. Talvez por isso, alguns telespectadores gostam mesmo quando algo dá errado nas transmissões ao vivo. ''Tem gente que até me pede: 'Maria, por favor, erra!' Eles torcem para me ver numa roubada'', diverte-se.
Hoje, o estilo de Maria pode ser considerado um trunfo. Mas nem sempre foi assim. No primeiro ano do Globonews, houve até uma mobilização interna para ''enquadrar'' a apresentadora no perfil tradicional da âncora, com gestual discreto e ar compenetrado. Por conta disso, ela passou a gesticular menos e assumiu um ar mais contido e sisudo. Resultado: uma chuva de e-mails indignados perguntavam o que havia acontecido com Maria Beltrão. ''Percebi, então, que gostavam de mim do jeito que eu era'', conclui.
O carisma da novata só não era surpresa para a então diretora do Globonews, Alice Maria. As duas se conheceram num curso de apresentação para tevê, ministrado por Alice. Na época, Maria ainda cursava o quarto período de Jornalismo. ''Terminei o curso certa de que televisão não era a minha praia'', lembra. Dois anos depois, em 1996, Alice Maria foi encarregada de implantar o novo canal e convidou a ex-aluna a participar do processo de seleção e treinamento. Com três meses de formada, Maria Beltrão debutava na bancada. ''Eu era gaga e péssima no vídeo! Queria desistir, mas a Alice dizia que eu só precisava imprimir meu estilo'', recorda, grata.
De fato, Maria Beltrão logo se sobressaiu nas coberturas de última hora. A primeira aconteceu em 1997, por acaso. A jornalista passava o segundo dia de lua-de-mel, em Londres, quando chegou a notícia da morte de Lady Di. ''Minhas férias acabaram ali! Virei correspondente por acidente'', admite. Desde então, a âncora tem sido convocada nos momentos de cobertura ostensiva, como o cárcere privado de Sílvio Santos, os atentados terroristas nos Estados Unidos e a ofensiva norte-americana no Afeganistão. ''Tenho facilidade para improvisar e meu trabalho cresce nesses momentos'', acredita Maria que, em função dos atentados de 11 de setembro, ficou 14 horas no ar.
A experiência adquirida no Globonews, porém, não diminui a ansiedade que Maria Beltrão sente toda vez que é ''emprestada'' para a Globo. No ''Bom Dia Brasil'', ela cobre férias de Leilane Neubarth e divide a bancada com o veterano Renato Machado. ''Morro de medo, passo mal, tenho taquicardia... Imagina ficar ao lado do Renato, aquela enciclopédia ambulante!'', exagera. Mas a prova de fogo foi a cobertura deste ano do Desfile das Escolas de Samba do Rio. Na época, Maria Beltrão sofreu com os frequentes enjôos de gravidez. Agora, no sétimo mês, exibe a barriga com orgulho e aguarda ansiosa a chegada de Ana. ''Mas só deixo o vídeo se ficar com aquela cara de abóbora. Do contrário, vou ter minha filha na bancada'', brinca a mamãe de primeira viagem.
Para evitar o ''falha nossa'' tão aguardado pela parcela sádica da audiência, Maria procura estar sempre o mais bem-informada possível. Lê os principais jornais, pesquisa assuntos na Internet e, até em casa, acompanha os noticiários. Mas há sempre algumas ''surpresas'' que desafiam sua concentração, como a matéria engraçada que entra na hora errada, o assistente que leva um tombo no estúdio ou a câmara automática que sai pulando e tem de ser ''domada''. ''Teve uma repórter que, depois de uma reportagem trágica, disse: 'Fulana de Tal para o 'Sai de Baixo''. Imagina a minha cara, tentando ficar séria e corrigir aquilo!'', lembra, liberando a gargalhada que precisou conter na ocasião.


