Estrela do circuito alternativo, Eugene Hutz foi protagonista do filme ''Filth and Wisdom'', dirigido por Madonna, com quem ele também já dividiu o palco no Live Earth de 2007. Presença quase certa no show que a material girl fará por aqui em dezembro, o músico poderá ser visto antes disso no TIM Festival, em outubro, quando se apresenta à frente de sua banda Gogol Bordello.
Juntos, eles tocam de música cigana a punk rock, dub, metal, rap, reggae e ska. O trabalho mais recente da banda, Super Taranta, lançado no ano passado, foi muito bem recebido pelos fãs e pela crítica.
O músico, que já morou num campo para refugiados de Chernobyl e Nova Iorque, é hoje quase um carioca de carteirinha: comprou casa no Rio e se apresenta anonimamente como DJ em festas alternativas.
Gogol Bordello é a sua primeira banda?
Participo de bandas desde os meus 14 anos. Eu costumava tocar bateria. Gostava muito de tocar covers do Slayer quando era novo. Acabei ficando com artrite num dos pés de tanto tocar alucinadamente e comecei a escrever as minhas próprias canções. Quando saí da Ucrânia eu já tinha uma banda. Nunca tive dúvidas de que faria isso da minha vida.
Qual a sua formação musical?
Na minha família, a música não é algo que vem de um CD ou fita, mas é algo feito o tempo todo. A gente se senta em volta da mesa para comer e há sempre uns cinco violões no recinto. É uma parte natural do ambiente. Essa é a minha principal influência: a liberdade de fazer música a qualquer momento.
Você resgata essa tradição com outras pessoas, para se divertir?
Não é só para me divertir. É uma ferramenta muito poderosa para animar, para relaxar, para esquecer os problemas... A qualidade de vida de quem entende isso é diferente. Por exemplo, as pessoas mais devastadoramente pobres estão nos EUA porque lá os valores materiais são tudo. Por causa do acidente de Chernobyl eu fui isolado quando menino. Não tinha que ir à escola e aprendi coisas diferentes. Aprendi que o mundo não está dividido em fronteiras, mas sim em quem possui ou não capital. Gogol Bordello é sobre isso, sobre anarco-capitalismo.
Como é para você lidar com a sua ascendência cigana, sendo forçado a adotar outras línguas e não se sentindo parte de nenhum lugar?
Acho que quando você é capaz de se conectar com as pessoas, você se sente em casa não importa onde esteja. E, para ser sincero, este é o meu altar (bate na guitarra), quando estou com ela estou em casa. Não é uma questão geográfica.
A banda começou em Nova Iorque mas a maioria do grupo não é dos Estados Unidos. Isso influencia o som do grupo?
A maioria de nós vem de diferentes partes do mundo. O único americano na banda é Eliot, o baterista. Yuri e Sergei são russos. Há ainda gente de Israel, Etiópia, de todas as partes. Essa riqueza cultural influencia, claro. Mas não gosto de rótulos para nossa música. O que gosto é dessa mistura de rock com música cigana.
E sua relação com Madonna? Como foi atuar no filme dirigido por ela?
Ela tem sido uma grande incentivadora e fã da nossa banda. Eu tive uma experiência maravilhosa trabalhando com ela, foi como andar em outro planeta. Eu percebi o quão especial ela é como pessoa e como seus métodos são diferentes e como ela trabalha duro em contraste com a maioria das pessoas da cultura pop. Entendi o porquê de ela ser uma inspiração tão grande para toda uma geração.
E como surgiu o convite para tocar com ela no Live Earth?
Eu ficava tocando canções ciganas nos intervalos das filmagens para nos divertir. E ela sacou que a música cigana tem muita conexão com a escala da música espanhola. Como ela tem uma música neste formato (La Isla Bonita), colocamos as duas músicas juntas.
Você mora no Brasil no momento. Como surgiu a idéia de se mudar para o Rio?
Durante muitos anos ouvi que o Rio era o lugar ideal para passar muito tempo. Mano Chao me dizia o tempo todo que eu tinha que conhecer a cidade. Então o inverno gelado de Nova Iorque estava chegando e eu disse para mim mesmo ''vamos conferir''. Isso foi em janeiro ou fevereiro. Vi o carnaval, fui a Recife e Olinda e agora vou levar a minha banda para ver tudo isso.
Você tem alguma conexão com músicos brasileiros?
Eu comecei a explorar isso com a galera do Mundo Livre S/A. Em Nova Iorque conheci também uma banda de brasileiros chamada Manhattan Samba, com músicos do Rio. Mal posso esperar para que toquemos juntos no Brasil. Essa sim vai ser a festa.
Você também se tornou fã do frevo recentemente...
É uma festa total, uma música positiva, alegre, uma celebração total. É uma coisa tão doida, isso é um mistério para mim.

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