O cantor das multidões
Há 20 anos morria Orlando Silva,
o cobrador
de lotação
que virou
ídolo da MPB
Ademir Fernandes
Reprodução
Agência Estado
No começo dos anos 30, ele costumava pedir aos passageiros do lotação para dar mais um passinho à frente. Mas trabalhar como cobrador de ônibus não era bem o que o jovem Orlando Silva queria. Seu sonho era ser cantor. Batalhou tanto que, enfim, conseguiu o que queria. E deu muitos passos para a frente em sua vida. Tornou-se um dos maiores cantores da música popular brasileira, sua presença era exigida pelo presidente Getúlio Vargas em seus saraus, vendeu milhões de discos e até hoje, 20 anos depois de sua morte (6 de agosto de 1978), não há um dia sequer sem que alguma emissora de rádio toque pelo menos uma de suas músicas.
Não há, também, uma seresta sequer onde não sejam cantados seus maiores sucessos, como Rosa, Lábios Que Beijei, Carinhoso, Juramento Falso, Aos Pés da Santa Cruz...
Orlando Silva, o cantor das multidões, ganhou quatro biografias, escritas por Rui Ribeiro, Otto de Castro, José Maria Mangia e Jonas Vieira, e teve seus discos relançados recentemente em uma caixa com três CDs pela gravadora BMG-Ariola e relançados também pela paranaense Revivendo.
O começo de tudo foi uma frustrada tentativa feita em 1934 na extinta Rádio Cajuti, no Rio. Mesmo tendo sido tratado com descaso pelo diretor da emissora, Orlando não desistiu e, graças à ajuda do compositor Bororó, cantou no Café Nice, para Nássara e Orestes Barbosa, que por sua vez o apresentaram ao cantor Francisco Alves. Orlando Silva cantou dentro do carro de Chico Alves que, entusiasmado, o levou de volta para a Rádio Cajuti, onde tinha um programa. Na estréia, o apresentador Cristóvão Alencar queria anunciá-lo como Orlando Navajo, por influência de um artista com esse sobrenome que fazia sucesso na época, mas ele fez questão de manter o Silva.
Esse episódio é contado no livro O Cantor Número Um das Multidões (Editora Cruzeiro do Sul), do jornalista e advogado Rui Ribeiro. O que considero mais impressionante na história de Orlando é que ele arrebatava o público, as fãs rasgavam sua roupa, desmaiavam, disputavam loucamente um toco do seu cigarro, afirma Ribeiro. Ele foi o primeiro a causar essas reações do público, muito antes de Emilinha Borba e Cauby Peixoto, e isso numa época em que não se falava ainda em marketing.
Depois, cita ainda o autor, o cantor decaiu, se envolveu com tóxicos e bebidas, desiludido por ter sido abandonado pela atriz Zezé Fonseca, com quem vivera durante três anos. Graças à força da esposa Maria de Lourdes, com quem se casou em 1947, conseguiu livrar-se do vício, mas a voz já não era a mesma. Morreu aos 62 anos.
Segundo seus biógrafos, Orlando perdeu os dedos dos pés aos 16 anos, atropelado por um bonde, e no hospital deram-lhe morfina. Em 1942, voltou a usar morfina por conta própria, para aliviar as fortes dores que sentia por causa de uma doença nas gengivas, e acabou se tornando dependente da droga.
O termo o cantor das multidões foi dado pelo locutor Oduvaldo Cozzi, da Rádio Nacional do Rio, onde Orlando viveu a melhor fase de sua carreira. Quando se apresentou pela primeira vez na capital paulista, na Rádio São Paulo, atraiu mais de cem mil pessoas à Praça da Sé, um recorde na época. Nessa mesma ocasião, segundo Jonas Vieira, o presidente Getúlio Vargas comentou que tinha inveja da popularidade de Orlando Silva, de quem era fã incondicional.
Apesar do sucesso, o golpe sofrido ao ser abandonado pela bela Zezé Fonseca abalou sua carreira. Contam os biógrafos do cantor que ela era ciumenta, rasgava as cartas das fãs de Orlando, armava um escândalo atrás do outro. Ainda apaixonado, depois da separação, punha mais ênfase na voz ao cantar os versos de Nada Além, o antológico sucesso de Mário Lago e Custódio Mesquita:
Se o amor/só nos causa sofrimento e dor/É melhor/bem melhor a ilusão do amor/Eu não quero e nem peço/para o meu coração/nada além/de uma linda ilusão...





