Que a a voz de Ná Ozzetti soa como cristais traduzidos em notas musicais, isso a grande maioria já sabe. A boa nova é que o primeiro disco-solo da cantora e compositora paulistana lançado originalmente em 1988 pode, agora, ser encontrado em CD . Encabeçado pela MCD, o selo aproveita a maré dos relançamentos anteriores da artista (''Ná'' e ''Estopim'') para presentear aos ouvidos apurados com uma outra obra fora de catálogo. Coordenado pela própria cantora, além do encarte com as letras de todas as músicas, o disco ressurge em embalagem digipack, fotos inéditas, um texto de apresentação assinado por ela, e uma faixa multimídia com cenas históricas da gravação do álbum em 1987, acompanhadas pela clássica ''No Rancho Fundo'', de Lamartine Babo e Ary Barroso.
Nas entrelinhas que sondam esse trabalho, influências do período em que despontava como a voz feninina do grupo Rumo aquele do canto-falado de Paulo e Luiz Tatit e bebia na mesma fonte de Itamar Assumpção, Zé Miguel Wisnik, Bocato e seu irmão Dante Ozzetti.
Co-produzido por Dante e Paulo Ferreira, o então LP mostrava onze canções que se intercalavam entre assinaturas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos ('Sua Estupidez'), Domenico Modugno ('Dio Come ti Amo', maravilhosamente reconfigurada por Ná), Zé Miguel Wisnik ('Sócrates Brasileiro', 'Libra', ''A Olhos Nus' e 'Orfeu'), Luiz Tatit ('Ah!'), Dante ('Diva'), Itamar Assumpção ('Cardápio Barra Pesada', com Paulinho Lepetit) e Tião Carvalho ('Nós', registrada algumas vezes por Cássia Eller). E como a própria Ná assinala em seu texto de abertura, ''aqui estão reunidas algumas experiências desse período, com diferentes formações instrumentais com as quais eu trabalhava na época (...) Espero que vocês curtam rever minha estréia em disco-solo! Eu adorei!''. A seguir os principais trechos que a cantora e compositora concedeu a Folha2.

Qual é a sensação de relançar esse disco?
Pra mim é uma realização, porque há muitos anos eu gostaria de estar com esse disco em catálogo, pois estava sempre esgotado. Ele foi lançado naquela época dezoito anos atrás , permaneceu uns dois anos e depois saiu de catálogo. E as pessoas que procuravam por meus discos sempre perguntavam pelo primeiro. Então estou muito feliz por ele ter voltado a existir.

Fale um pouco sobre a elaboração do repertório desse disco. Aliás, seria como um marco entre duas fases: o fim do grupo Rumo e o início de sua carreira individual. Algumas músicas já eram apresentadas pelo Rumo, não?
Nessa época eu estava experimentando alguns caminhos dentro do meu trabalho-solo; ainda não sabia muito bem que caminhos seriam estes. Foi um período muito rico na minha carreira. Foi quando eu conheci o José Miguel Wisnik fiquei maravilhada com as composições dele , comecei a conviver bastante com o Itamar Assumpção de quem eu sempre fui fã. Nesse disco tem uma faixa com ele e a banda Isca. Também comecei a fazer um trabalho que depois foi a matriz de toda minha carreira-solo junto com o Dante Ozzetti, meu irmão, e começamos a desenvolver algumas releituras, como 'Dio Come Ti Amo', 'Sua Estupidez', 'Nós'. Foram várias experiências que eu estava vivendo no momento e reuni nesse disco. Também tem um pouco do Rumo, porque a faixa 'No Rancho Fundo' fazia parte do repertório do grupo. Convidei alguns integrantes que fizeram o arranjo para gravar no disco comigo.

Parece difícil dissociar Ná Ozzetti desse período de vanguarda paulistana experienciado pelo Rumo. Como é fazer fazer parte dessa história?
Eu me sinto privilegiada por e ter estado ali naquele momento (risos). E conviver com essas pessoas tão geniais, como o Itamar Assumpção, com meus colegas do Rumo mesmo, Luiz Tatit que até hoje é meu parceiro musical mais antigo , Arrigo Barnabé. Eu sempre tive muito orgulho de fazer parte dessa geração, eu me identificava totalmente com o que estava se produzindo nessa época. As pessoas da minha geração estavam surgindo naquele momento com novos ares de produção musical, novas idéias e aquilo tudo pra mim era maravilhoso. Foi uma situação que eu vivenciei com muita intensidade e prazer.

Você comentou sobre parcerias musicais. Atualmente quem são seus parceiros mais frequêntes?
São o Luiz Tatit, o Itamar foi enquanto ele viveu meu parceiro; o Dante Ozzetti, apesar de não termos muitas músicas em parcerias, a gente tem uma parceria de trabalhar juntos; o Wisnik é a mesma coisa, enfim, são pessoas que têm uma importância muito grande nessa minha trajetória. Fiz muitas produções, tanto eles no meu trabalho quanto eu no trabalho deles ao longo da carreira. Eu tenho uma parceria mais recente que há dois anos estamos trabalhando; é o André Mehmari. Lancei um disco de piano e voz ano passado, e de lá pra cá a gente tem feito muita coisa juntos. E tem o Manga, que era desse período da vanguarda paulistana, e atualmente trabalhamos juntos. Eu tenho uma outra formação paralela a essa do André, que é um quarteto (Mário Manga, guitarra e violão cello; Dante Ozzetti, violão; Sérgio Reze, bateria e percussão; e Zé Alexandre Carvalho, contrabaixo.

Qual é a sua formação musical? Você cresceu rodeada de músicos na família...
Isso. Desde criança sempre tive a música na minha família, tanto meus irmãos que já tocavam desde pequenos, como toda família que sempre apreciou muito a música. Aí eu estudei piano quando criança e aos quinze anos eu decidi mesmo por seguir a carreira musical. Procurei estudar formação musical, fiz algumas escolas de música e depois na faculdade, aliás, uma experiência muito rica para minha música, eu já conheci o pessoal do grupo Rumo e fui convidada para para fazer parte do grupo, foi quando comecei minha carreira profissional. Toco piano mais para composição, nem me considero pianista, é mais para eu poder correr minhas idéias musicais.

Você participou do Festival da Música Brasileira, exibido pela Rede Globo em 2000, e conquistou o prêmio de melhor intérprete. Ano passado, a TV Cultura também realizou um evento de porte menor. O que você acha dessa tentativa de ressuscitar os grandes festivais nas décadas de 60 e 70?
Até então, eu nunca tinha passado por uma experiência de festivais. Achei muito interessante e gostei de estar lá, no mesmo momento e no mesmo evento de tantas outras pessoas que eu admiro tanto. Eu acho que esses festivais devem ser pensados de uma forma assim, talvez mais simples. Porque as pessoas gostam de ouvir as músicas, de acompanhar, torce por uma ou não torce, mas fica acompanhando a evolução das eliminatórias. Mas eu prefiro um formato mais direto, mais simples, sem parafernálias, sem muita produção em cima; a música pela música. Não sei se isso ainda é possível numa TV de grande alcance, parece que tudo tem que haver uma grande produção atrás. Eu, como telespectadora, acredito que sim, que é possível fazer uma coisa mais direta.

E quanto aos shows e turnês, o que você tem apresentado?
Desde o ano passado eu tenho me dedicado ao lançamento do CD ''Piano e Voz''. A gente fez uma turnê que será encerrada esse mês nas últimas cidades Rio de Janeiro e Manaus aí a gente se entusiasmou tanto no processo e acabamos gravando um DVD que será lançado no segundo semestre. Paralelo a isso, eu fiz um grande evento aqui em São Paulo em comemoração ao relançamento dos meus discos, lá no auditório do Ibirapuera, onde eu reuni esse quarteto do qual eu te falei e mais alguns convidados, que são o André Mehmari, Zé Wisnik e o Luiz Tatit. Foram três noites de show 'meio festa', em que eu revi todo esse repretório dos três disco relançados pela MCD e agora eu também pretendo, depois do DVD do piano e voz que vai fechar um ciclo, eu pretendo gravar esse disco com o quarteto no ano que vem, baseado num repertório com autores bem contemporâneos e músicas inéditas também.

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