Reprodução‘‘Aguçem os ouvidos, ainda tenho muita coisa boa a fazer’’Ela voltou com a corda toda. Mais desplugada, impossível. Depois de dois anos, Gal Costa retorna ao mundo fonográfico com o ‘‘Acústico’’, projeto feito em parceria pela gravadora BMG e MTV. É seu 22º disco em que ela faz um resgate de algumas das mais marcantes canções de seu repertório registradas, ao vivo, no dia 17 de julho, no Memorial da América Latina. Ao todo, 16 faixas, a maioria sucessos da década de 70, e que conta com participações especiais de Luiz Melodia, Herbert Vianna, Frejat e Zeca Baleiro.
No disco, Gal canta acompanhada de sua banda e de uma orquestra de 70 músicos cuja regência e arranjos ficaram a cargo de Wagner Tiso. Trata-se, como a própria cantora explica, de um trabalho de revisão de carreira que, felizmente, pulou a fase carnavalesca para se ater ao que de mais sofisticado foi registrado, nos últimos 30 anos, pela voz mais importante da MPB.
O resultado final agradou à baiana. ‘‘Eu tinha muitas críticas em relação a gravações ao vivo, mas deste disco eu gostei porque, sobretudo, mostra minha maturidade como cantora’’- disse Gal Costa em entrevista exclusiva à Folha2. A seguir, os melhores trechos da entrevista.
Esse é um simples trabalho de revisão de carreira ou há uma importância maior que vai além disso?
Gal Costa - A importância é o prazer de regravar todas aquelas canções da década de 70 e trazê-las à tona nesse momento em que meu canto está maduro. A idéia de regravar coisas de tempos em tempos é muito bom. É uma coisa que as grandes cantoras americanas fazem e que as brasileiras deveriam fazer também porque isso mostra, sobretudo, maturidade. As pessoas conseguem acompanhar o crescimento do cantor.
Certo, mas não caberia pelo menos uma música inédita nesse disco? Não ficaria legal?
Gal Costa - Não porque a idéia foi não fazer nada inédito. A idéia foi fazer uma revisão de carreira mesmo.
Você aceitou fazer esse trabalho para a MTV para se aproximar ainda mais da chamada ‘‘geração MTV’’, mais acostumada ao rock e ao pop?
Gal Costa - Eu fiz esse trabalho para a MTV porque foi uma sugestão da gravadora. Eu acho muito bom ter gravado essas canções porque a gente jovem que ouve e vê a MTV vai saber da existência dessas canções.
O disco tem muito Caetano e pouco Gil. Por que não houve mais espaço para Gil que sempre foi um compositor extremamente presente em todos os seus trabalhos?
Gal Costa - É...Tem um Gil só, né?! É porque o Caetano compôs muito mais para mim do que o Gil. O Gil tem muito valor histórico para mim. Eu gostaria de ter feito um álbum duplo porque não deu para gravar do meu repertório as canções mais representativas num disco só. Teria que ter sido um disco duplo o que não aconteceu porque a gravadora fez pressão para que o disco saísse rapidamente. Alegaram que um disco duplo teria um custo maior etc etc. Enfim, tiveram empecilhos que geralmente as gravadoras impõem e que a gente acaba não fazendo aquilo que a gente gostaria de ter feito. Mas, enfim, tá bom. Mas futuramente quero regravar canções do Gil.
Há convidados conhecidos como Herbert Viana, Frejat, Luiz Melodia. Mas há Zeca Baleiro também que é um cantor e compositor pouco conhecido. A participação dele seria uma espécie de apadrinhamento musical a exemplo do que você fez com Luiz Melodia?
Gal Costa - Eu concordo com isso. De Luiz Melodia eu sou madrinha porque fui eu quem lançou o Melodia, fui a primeira cantora a gravar uma canção dele. Com o Zeca também porque ele fez aquela canção (‘‘Flor da Pele’’) numa homenagem a ‘‘Vapor Barato’’, o que me deixou muito emocionada. Então eu só poderia convidá-lo a participar no disco.
O repertório do especial da MTV era maior. O disco foi condensado e algumas músicas acabaram sendo retiradas como ‘‘Divino Maravilhoso’’ e, imperdoável, ‘‘O Amor’’. A quem coube a seleção final?
Gal Costa - Muitas músicas não entraram por problemas técnicos. Tinham canções que realmente não davam para entrar porque ... Não entrou ‘‘Força Estranha’’ que eu adoro e é uma canção que eu canto a toda hora. Eu queria mesmo era priorizar as canções da década de 70 e a única que realmente não entrou, e eu fazia questão, era ‘‘Força Estranha’’.
O resultado final do disco te agradou?
Gal Costa - É um disco bonito que revela minha maturidade como cantora. Eu gostei muito do resultado final e olha que eu tinha muitas críticas sobre discos ao vivo. Fiz, por exemplo, ‘‘Doces Bárbaros’’ cuja gravação dele não é boa apesar de ter canções belíssimas. Mas esse, tecnicamente ficou. ‘‘Sua Estupidez’’ é a faixa que eu mais gosto, ficou melhor que as anteriores. ‘‘Falsa Baiana’’ ficou melhor. Acho que tudo ficou bem em função do meu canto.
Em função do disco Acústico foi descartada a possibilidade de um disco só com músicas inéditas ou isso nem passava na sua cabeça antes de ser convidada pela MTV?
Gal Costa - O meu próximo disco será só com músicas inéditas.
E aquele projeto com músicas do Paulinho da Viola foi arquivado, adiado ou simplesmente extinto?
Gal Costa - Foi adiado.
O problema Gal é que você grava disco com intervalos longos....
Gal Costa - (interrompendo) Não, não...Meu próximo disco eu pretendo gravar logo, logo. Quero gravar ainda no próximo semestre do ano que vem. Entraria, claro, Caetano, Gil, Djavan mas quero que entre gente nova como José Miguel Wisnick, Zeca Baleiro, Chico César, Guinga, Adriana Calcanhoto. Quero gravar bastante gente nova que eu gosto.
São esses compositores novos que você unge atualmente ou existem outros?
Gal Costa - Não, não. Eu vou procurar mais compositores novos, quero descobrir bons compositores. Não posso lhe citar nenhum agora, mas estou procurando me informar sobre compositores desconhecidos que andam fazendo coisas legais e que não estejam na mídia.
Essa onda de gravar disco acústico já está virando mania no Brasil. Está até banal. Por que será que está acontecendo isso? O acústico vende melhor?
Gal Costa - Não sei se o acústico vende melhor mas o acústico é bom. Eu nasci acústica, completamente acústica embora também seja plugada. Se fosse para escolher eu escolheria os dois. Agora não sou acústica, estou acústica. Mesmo que eu não tivesse feito esse trabalho para a MTV eu faria um trabalho com sonoridade acústica.
Sua voz está cada vez melhor. Mas a impressão que me passa é que, às vezes, há uma preocupação maior com a técnica...
Gal Costa - (interrompendo) Não, não, não é nada disso. Isso não ocorre. A técnica eu tenho, é inevitável. Não posso abandoná-la, deixá-la de lado porque nasci com ela. E de mais a mais sou autodidata e tenho técnica... Eu estou cantando de uma forma mais zen possível. Ou seja, a emoção acompanha a técnica. Para mim, a técnica vem em função da emoção e não o contrário. Para mim, a emoção foi quem me ensinou a técnica.
Como autodidata, a voz já está moldada ao seu gosto?
Gal Costa - Minha voz está moldada... está moldada ao meu jeito de agora. Ela ainda pode melhorar...Não existe esse negócio de moldar a voz como a gente quer. A voz é o que a gente é.
Cenicamente você está mais econômica, menos teatral, não é mesmo?
Gal Costa - É, estou mais centrada na coisa do canto do que propriamente nessa coisa chamada teatral. Eu acho que todo gesto cênico tem que vir em função do canto.
Não é de hoje que você é considerada a ‘‘maior cantora do Brasil’’. Sem falsas modéstias, você se sente assim?
Gal Costa - Eu me considero apenas uma grande cantora. Eu considero minha geração como ponto de referência a todos que estão aí e eu me incluo nesse ponto. Então, eu me considero uma das grandes cantoras da minha geração. Eu acho que sou uma cantora maravilhosa. Se sou a maior cabe às pessoas dizerem.
Como você resumiria esses trinta anos decarreira?
Gal Costa - Assim: não faltou nada. Eu olho pra trás e vejo que tive uma carreira brilhante. E olho pra frente e vejo que tenho muita coisa pra fazer. Portanto, aguçem seus ouvidos, arejem suas cabeças porque tenho muita coisa boa para fazer.

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