O canto do Cisne Negro
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quarta-feira, 18 de março de 1998
Rodrigo Garcia Agência Estado 
Arquivo FolhaCruz e SousaFilho de escravos, o poeta Cruz e Sousa enfrentou a miséria e o preconceito. Alguns críticos disseram que ele era um negrinho mau rimador e que não alcançaria o sucesso quem tinha a cruz no nome e a noite na epiderme. Mas, com uma bela poesia e muito talento, ele conseguiu ser o principal escritor do simbolismo, um dos movimentos literários mais importantes do País. Hoje, dia do centenário de sua morte, o Brasil vai homenagear esse grande artista, considerado o Cisne Negro.
João da Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, em 24 de novembro de 1861. Seus pais, o escravo pedreiro Guilherme da Cruz e a negra alforriada Carolina Eva da Cruz, trabalhavam para um casal: o marechal Guilherme Xavier de Sousa e Clarinda Fagundes Xavier de Sousa. Não tendo filhos, criaram o menino João como tal, que passou a utilizar o sobrenome do proprietário do pai.
Desde criança, Cruz e Sousa mostrava aptidão para as letras e escrevia versos. Quando o poeta estudava no Ateneu Provincial, o professor alemão Fritz Muller, famoso cientista e colaborador do naturalista Charles Darwin, lhe fez vários elogios. Esse preto representa para mim mais um reforço a minha velha opinião, contrária ao ponto de vista dominante, que vê no negro um ramo da raça humana em tudo inferior e incapaz de desenvolvimento racional por suas próprias forças.
Com cerca de 20 anos, Cruz e Sousa foi trabalhar numa loja como vendedor. Mas, quando uma companhia de teatro passou por Desterro, ele resolveu acompanhá-la, atuando como ponto, a pessoa que fica escondida soprando as falas para os atores no palco. Nessa época, ele conheceu várias cidades do País, em cujos jornais publicava artigos abolicionistas e poemas. Ao voltar a Santa Catarina, foi nomeado promotor da Laguna, mas não assumiu o cargo por causa das pressões dos racistas.
Em 1890, foi para o Rio de Janeiro, onde três anos depois lançou seus dois primeiros e principais livros: Broquéis, de poesia, e Missal, de prosa poética. Mas as obras não alcançaram sucesso, pois a tendência literária dominante na época era o parnasianismo, que defendia uma arte com regras bem rígidas e bastante relacionada à realidade. Seus seguidores, cujo líder era Olavo Bilac, acusavam Cruz e Sousa e outros simbolistas de serem muito imprecisos e sonhadores.
Nesse mesmo ano, o poeta casou-se com a negra Gavita. O casal levou uma vida de muitas privações. Ele só conseguira um emprego modesto na Estrada de Ferro Central do Brasil e ela começou a ter crises de loucura. Eles tiveram quatro filhos, dois morreram recém-nascidos e dois na adolescência. Cruz e Souza, portanto, não deixou descendentes.
Tendo pego tuberculose, Cruz e Sousa foi tratar-se na cidade de Sítio, em Minas Gerais, onde morreu no dia 19 de março de 1898 aos 36 anos. Seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro num vagão de transportar cavalos e enterrado num túmulo simples.
Anos depois, os ossos foram transportados para um túmulo maior, no qual estão escritos os últimos versos de seu soneto Triunfo Supremo, que é um bom resumo de sua vida: Quem florestas e mares foi rasgando/ E entre raios, pedradas e metralhas,/ Ficou gemendo, mas ficou sonhando.Trechos de
Violões que Choram
Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
bocas murmurejantes de lamento.


