O canto de protesto dos sem-incentivo
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segunda-feira, 19 de maio de 1997
Érika Pelegrino 
A música ao vivo, nas noites de Londrina, não está com a corda toda como acontecia nas décadas de 70 e 80. A constatação parte dos próprios músicos. Mas quais os motivos de a MPB estar tão em baixa nos bares de Londrina? Seria a situação econômica do País? A febre das músicas mecânicas? Ou será que essa nova geração está mais próxima do rock e do dance do que propriamente da MPB? A cantora Marta Santos, que há mais de 30 anos canta nos bares de Londrina, aposta na crise econômica. O Brasil está apertado, afirma.Com a música não poderia ser diferente.
Segundo ela, não mais que três bares e uns poucos hotéis abrem espaço para a divulgação da música popular brasileira ao vivo. Diante deste quadro, a cantora conclui que o empresário não tem mais cacife para bancar músicos. Em Londrina é difícil achar dono de bar que entenda de música, dispara.O comum é contratar o músico mais barato. Eles (os empresários) vêem na música, apenas uma forma de vender o produto deles, afirma.
Embora não coloque muita fé em um renascimento da MPB ao vivo, Marta Santos acredita que a mudança de mentalidade dos empresários poderia ajudar. É preciso incentivo, empresários com uma visão cultural. Se em tempos normais o músico não ganha para sobreviver, imagine em época de crise, desabafa.
O irmão de Marta, Marcos Santos, um dos músicos mais respeitados de Londrina, vive de música há 20 anos. Ele vai mais fundo e diz que a raiz do problema é cultural. Segundo ele, já existiram épocas melhores, só que Londrina nunca foi uma cidade com vida cultural de 2ª a 6ª . Aqui sempre se fez música só às sextas-feiras e aos sábados, afirma.
Outra reclamação de Marcos é o espaço para shows. O espaço que tem é para música sertaneja e rock. São shows mais fáceis de vender porque é o que a mídia vende. O público, de maneira geral, não tem interesse na MPB, acredita.
Cachê baixoAinda segundo Marta e Marcos Santos, a crise aliada à falta de perspectiva pode fazer com que o músico acabe se sujeitando a cantar músicas que fogem ao repertório habitual e pessoal. Eu não me sujeito a isto, diz Marta. Marcos completa: Quem não se sujeita fica sem dinheiro.
Marcos não tem lugar fixo para tocar. Mas, apesar das dificuldades, ainda tem espaço toda sexta-feira e sábado. Com um cachê de R$ 50,00, em média, para quatro horas de trabalho, tem muito músico indo para fora do País. Lá fora o artista é desconhecido, mas sobrevive. Aqui só é desconhecido, avalia Marcos.
Representante da mais nova geração de músicos da cidade, Otávio Vazzi, que também é dentista, está há quatro anos no ofício. Ele é um dos que engrossam o coro sobre a não obrigatoriedade de mudança de estilo para sobreviver. Eu me reciclo sem abrir mão do meu estilo, que é a MPB. Vejo o que tem de novo e que tenha qualidade, explica.
Um exemplo de quem fez as malas e foi tentar a sorte no Exterior é o cantor Mizael, que durante as décadas de 70 e 80 viveu o seu auge nas noites de Londrina. Quem deve seguir o mesmo caminho é Denilson Miranda Michelato, músico há oito anos. A mala está pronta, só falta fechar o zíper, diz. Será que a única saída é a do aeroporto? indaga.
Na opinião de Denilson, são muitos os motivos, da decadência da música ao vivo: baixo poder aquisitivo, mudança de comportamento do público, festas nos finais de semana, falta de investimentos de empresários na área de cultura. Otávio Vazzi, também compartilha da opinião dos colegas. Segundo ele, ser músico hoje em Londrina é muito difícil.
Além do cachê baixo, a instabilidade é grande. Você vai tocar um dia e no outro o dono do bar diz que você não precisa voltar mais, exemplifica. Mas o ponto fundamental é o público, segundo Otávio. Hoje parece que o londrinense se desacostumou a sair de casa para ouvir música, diz. O problema é que o londrinense sai para jantar e ir à boate. Nós somos gratos às pessoas que saem para ouvir música.
Uma boa escolaMarcelo Camargo, seis anos de profissão, também aponta dificuldades mas, assim como seus colegas, garante: cantar na noite é muito bom. Marcelo tem planos futuros para a vida acadêmica - ele cursa Música na Universidade Estadual de Londrina. Mas, como afirma, mesmo formado vai tocar na noite sempre que puder.
Assim como outros, Marcelo não tem um local fixo para se apresentar. Mas ele vê isso como um fator até positivo.De uns três anos para cá os proprietários dos bares preferem o revezamento de músicos. Com isso, o músico acaba mostrando seu trabalho em outros lugares, se reciclando- analisa.
Um dos prazeres que a profissão proporciona é, como explica, ter a possibilidade de tocar, inclusive, fora de Londrina. Eu acho que todo músico tem este lance de querer colocar o pé na estrada. Ampliar contatos, ter mais possibilidades, acredita.
Porém, nem sempre o aplauso é o indicador de que estão agradando ou não, segundo Marcelo. Os públicos são diferentes, alguns são mais tímidos e nem sempre vão aplaudir, diz. A aceitação do trabalho pode ser traduzida através de conversa com o músico e os pedidos de música, por exemplo.
E o que não falta são pedidos. E tem sempre aquela música da qual eles não escapam, sempre têm que cantar. Determinada música pode já ter passado para mim, mas para aquela pessoa é a música da hora. Isto vai possibilitar uma troca de energia muito boa entre o músico e o público, afirma Marcelo, que só toca MPB.Cantar é muito bom. Tocar um instrumento é muito bom, diz Marcelo.
Sem muita ajudaA maioria dos músicos de Londrina reclama que diante de todas as dificuldades, não possuem uma entidade representativa, apesar da cidade contar com uma delegacia da Ordem dos Músicos do Brasil, desde 1961. Mesmo assim é comum alguns músicos locais afirmarem que o órgão não tem ajudado em nada. Uma das reclamações é que as carteiras, tanto profissional quanto temporária, são conseguidas sem muito esforço.
Osvaldo Raimundo, o Branco, delegado da entidade há oito anos, discorda. Ele explica que para conseguir a carteira temporária, que é válida por um ano, o músico tem que fazer um teste que consiste em tocar um instrumento e pagar uma taxa de R$ 75,28. Já para conseguir a carteira profissional, o músico se submete a testes práticos e teóricos, que serão analisado por um maestro vindo de Curitiba. A taxa é de R$ 68,00, anual. Os músicos que tocam sem carteira podem pagar multas que variam de R$ 28,00 a R$ 75,00. Já o estabelecimento paga uma multa de R$ 1.500,00.


