Curitiba Eles não falam a maior parte do tempo, prezam o silêncio, mas quando cantam, o fazem com o coração. Para os monges beneditinos do Mosteiro da Ressurreição, em Ponta Grossa, o canto é também uma oração. E é através do canto gregoriano que eles se aproximam de quem está fora do mosteiro e do processo de reclusão em que vivem. É uma forma de difundir uma premissa que vai além da religião e que passa bem perto do conhecimento próprio. Pois é essa filosofia socrática que os monges acreditam, a de conhecer a si mesmo. Para os monges, a solidão e a integração religiosa são caminhos que podem levar a esse conhecimento.
Por isso, o mosteiro é retirado, mas nem tanto quando eles precisam. Localizado próximo a cidade de Ponta Grossa, atualmente apenas alguns alqueires separam o mosteiro dos bairros do município. ''A noite já escutamos a música dos bailões da cidade'', brinca Dom Tiago Gross, o monge que atendeu a reportagem nem todos podem conversar com os visitantes. Para tentar mudar essa situação, os monges quebraram o silêncio e gravaram um CD de canto gregoriano com o objetivo de arrecadar fundos para a construção de uma nova sede, a ser construída em Itaiacoca, também em Ponta Grossa, mas mais retirado da cidade.
Esse já é o oitavo CD gravado por eles. O disco ''Minha Casa é Casa de Oração'' reúne 19 canções dos discos anteriores. Todos, porém tem uma característica inusitada: as músicas são cantadas em português. O canto gregoriano, também chamado de cantochão, é um tipo de música vocal utilizada pelo ritual da liturgia católica romana e é sempre cantado em latim. Mas no Mosteiro da Ressurreição, as letras foram traduzidas para o português. O trabalho é assinado por Dom André Martins, que há vinte e cinco anos traduz e compõe melodias em modo gregoriano, mas com poesia e letras em português.
O sucesso é tanto que os discos anteriores a esse lançamento já venderam 300 mil cópias. ''Precisamos vender outras milhares para construir nossa nova sede'', diz Dom Tiago Gross. Ele prefere não citar valores quando o assunto é avaliação da sede atual, que pode ser vendida, e o montante necessário para construir o novo mosteiro. O terreno para onde o mosteiro será transferido, a 40 km do atual, já foi adquirido. Tem luz, água e o projeto arquitetônico já está pronto, doado por um arquiteto paulista especializado em construções religiosas.
A mudança se justifica para se aproximar da premissa dos monges beneditinos: o silêncio. ''As pessoas vêm até aqui em busca do silêncio e nós não podemos oferecê-lo nessa situação'', lamenta. ''As pessoas'', no caso, são as dezenas de hóspedes, religiosos ou não, que procuram a hospedaria do mosteiro todos os dias e, de alguma forma, também contribuem para a subsistência do local (aliado à venda dos produtos de artesanato feito pelos monges). Os hóspedes ficam numa casa de quatro quartos, próximo a capela e antes da entrada da clausura, onde ficam os monges.
A recepção dos hóspedes cabe ao monge hospedeiro. Os visitantes entram em contato com o restante dos monges apenas nos ofícios, as ''missas'' que acontecem diversas vezes por dia, duram cerca de 20 minutos e são um convite à reflexão. Durante os ofícios, também acontece os cantos dos salmos, onde é possível ouvir ao vivo algumas canções presentes nos disco. É impossível não ser atingido pela beleza das músicas, que personalizam a paz que os monges tanto almejam.
No Mosteiro da Ressurreição vivem atualmente cerca de 30 monges. Eles passam por um longo processo de adaptação antes de receberem os votos. Dentro do mosteiro, eles têm uma rotina de trabalho e oração e saem apenas quando é necessário. Não assistem televisão, mas podem receber jornais. ''O nosso diferencial é manter o silêncio e a solidão. A solidão nos ajuda a pensar, a centrar o que está confuso'', acredita. Para ele, o mosteiro é um caminho dentro da igreja, mas não o único. ''O essencial, independente da escolha, é abrir espaço na vida para saber como podemos nos tornar um ser humano melhor''.
O Mosteiro da Ressurreição foi fundado em 1981 por um grupo de onze monges vindos de São Paulo. O objetivo era oferecer, no campo, o serviço religioso dos cantos dos salmos da Igreja e acompanhamento espiritual. A intenção era aproveitar o silêncio e a paz ambiente de oração, mas nesse um quarto de século, a área verde ao redor do mosteiro foi gradativamente diminuindo. Agora, os monges desejam arrecadar fundos para construir a nova sede, que ainda não tem data para ser concluída.
Serviço:
- O Mosteiro da Ressurreição fica na Rodovia do Café (km 5), em Ponta Grossa. As visitas podem ser feitas diariamente e o disco ''Minha Casa é Casa de Oração pode ser adquirido no local. Pedidos também podem ser feitos pelo e-mail [email protected] e pelo site www.ressurreicao.org.br. O telefone é (42) 3228-0043

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