São Paulo, 13 (AE) - A diretora britânica Antonia Bird gosta de temas polêmicos. Em "O Padre", seu primeiro filme a estrear no Brasil, fala de homossexualismo entre religiosos. Agora, com "Mortos de Fome", não deixa por menos, e serve ao espectador o saboroso prato do canibalismo. Antropofagia para valer, e não aquela de Oswald de Andrade, que pregava a incorporação onívora de valores culturais alienígenas, seguida da devida digestão nacional. Não. Antonia fala em canibalismo strictu sensu. A história, diz ela, baseia-se na lenda indígena do weendigo, segundo a qual quem come a carne do inimigo incorpora sua força e melhores qualidades. Logo, canibalismo é necessidade e virtude.
A trama passa-se em meados do século passado, nos Estados Unidos. Terra de pioneiros, gente branca e cristã avançando rumo ao Oeste, contra índios, mexicanos e outros seres de má vontade. Vida dura, enfim. O capitão John Boyd (Guy Pearce) pratica um ato de covardia, fingindo-se de morto durante uma batalha. Como castigo, é deslocado para uma região inóspita, onde vivem pessoas de hábitos estranhos. Certo dia, chega ao destacamento um forasteiro, o escocês Colohoun (Robert Carlyle, de Ou Tudo ou Nada). Ele conta uma história incrível, segundo a qual ele e amigos foram obrigados a comer mortos para sobreviver à fome quando ficaram isolados por uma tempestade. Humor negro - A partir desse depoimento, Antonia toma uma direção inesperada, imprimindo ao filme toques de humor negro, sequências macabras e algumas cenas contra esse programa se você está pensando em ir a uma churrascaria rodízio depois da sessão. Mas, enfim, escatologia não é privilégio de Antonia e muitos filmes excelentes são também desagradáveis - como é o caso do insuportável, mas genial "Sal•", de Pier Paolo Pasolini.
A pergunta da diretora passa por uma primeira etapa óbvia, mas necessária. É aquele tipo de filme que coloca o espectador contra a parede: E você, o que faria nesta mesma circunstância? Conhecem-se casos. Antonia cita o desastre na Califórnia, em 1846, quando um grupo de imigrantes fica isolado por uma tempestade de neve. Depois que acabaram os mantimentos, os sobreviventes comeram os corpos dos companheiros mortos. Antonia nem precisaria ir tão longe no tempo porque fatos semelhantes aconteceram aqui mesmo, na América do Sul, quando, anos atrás, um avião caiu na Cordilheira dos Andes.
"Mortos de Fome" não se restringe a essa discussão sobre a sobrevivência em situações limites. Evoca um caráter demoníaco no comportamento do personagem de Carlyle que, por vezes, apresenta nível de desempenho notável, o que não é surpresa para quem conhece seu potencial dramático. Um histrionismo bem administrado faz dele uma espécie de Anibal Lecter, o psiquiatra canibal de "O Silêncio dos Inocentes", vivido por Anthony Hopkins. Só que o filme de Jonathan Demme é um bem construído thriller, enquanto que o de Antonia parece mais ambicioso, mas também mais cheio de desníveis. Voracidade - Claro, a intenção de fundo (e que fica explícita por algumas frases trocadas) é espetar a voracidade da América, que tira sua força das proteínas alheias. Seja dito em favor de Antonia que a crítica em momento nenhum ganha um tom tosco ou excessivamente direto. Pena que, em outras cenas, o filme resvale para o trash mais rastaquera. Sobra seu caráter provocativo que, neste mundo tímido, já é quase uma qualidade em si.

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