O canibal ataca de novo
Wilmar Klein
De Curitiba
Guimarães Rosa observou certa vez se não me engano, num dos prefácios de Tutaméia Terceiras Estórias que o primeiro bispo do Brasil, Pero Fernandes Sardinha (Évora/Portugal, ? Alagoas, 1556), foi devorado pelos caetés (após o navio que o levaria de volta a Portugal ter naufragado próximo à foz do Rio Coruripe) e que o capitão James Cook, navegador inglês (Marton, 1728 baía de Realakekua/Havaí, 1779) que descobriu as ilhas da Sociedade e a Nova Zelândia (1768-1771), foi comido pelos aborígenes das ilhas Sandwich, concluindo, de ambos os episódios, que, pouco importando seja peixe (Sardinha) ou cozinheiro (Cook, em inglês), ninguém está a salvo de ser comido. E o alerta continua válido nos dias de hoje, pelo menos no terreno da ficção, especialmente quando se sabe que o mais refinado canibal de todos os tempos, o doutor (em Psiquiatria) Hannibal Lecter, voltou a atacar e chega este mês às livrarias brasileiras para ocupar o seu lugar na estante dos best sellers. O livro escrito por Thomas Harris chama-se Hannibal, tem 462 páginas e está sendo lançado pela editora Record, com tradução de Alves Callado.
Como se viu no livro anterior de Harris, O Silêncio dos Inocentes, e principalmente em sua adaptação cinematográfica (dirigida por Jonathan Demme em 91), o doutor Lecter, depois de ajudar a jovem agente do FBI Clarice Starling a capturar o serial killer Buffalo Bill, fugiu para um país não identificado do Terceiro Mundo. Agora, reaparece em Florença (Itália), com um novo rosto e uma nova identidade, a do professor Fell, um especialista em literatura italiana. Descobrimos, então, pelo passaporte do professor, que Hannibal, o Canibal, esteve todos esses anos no Brasil (um país antropofágico, como se sabe). Falando a língua de Dante com perfeição (coisa que não acontece com os atores da Terra Nostra) e citando de memória trechos obscuros do grande poeta florentino (nada como um canibal culto), torna-se curador de um dos edifícios históricos da cidade, o Palazzo Capponi não sem antes devorar o antigo curador. (Seria isso uma metáfora do canibalismo cultural ou, quem sabe, dos métodos de acesso a cargos e honrarias numa sociedade cada vez mais competitiva?) Seja como for, lá pelas tantas, surge na história um inspetor de polícia, Rinaldo Pazzi, que não demora a descobrir a verdadeira identidade do professor Fell. Ambicioso, Pazzi quer botar as mãos em Lecter, não para colocá-lo atrás das grades, mas para vendê-lo a um ex-paciente do médico, o milionário Mason Verger, que teve o rosto desfigurado (por cães) durante uma radical sessão de terapia. Empresário do mercado de carne suína, Mason quer ver o canibal ser devorado vivo por porcos selvagens.
Enquanto isso, no FBI, a agente Starling passa por maus momentos, respondendo a um inquérito por conta de uma ação de resultados desastrosos e, ainda por cima, sendo perseguida por um chefe invejoso que, após assediá-la sexualmente (sem êxito), quer acabar com a sua carreira. O que acontecerá a Clarice? Será rebaixada a faxineira do Arquivo X? Ou, mais uma vez, o doutor Lecter aparecerá para lhe dar uma força? Como não estamos nem na metade do livro e Hannibal ainda não devorou nem um terço de suas vítimas, não convém estragar as surpresas. Mas não se preocupe: se você não comprar o livro, acabará vendo o filme no cinema ou na TV. Thomas Harris, o criador desse festival de atrocidades com pitadas de alta cultura, já vendeu os direitos da obra para Hollywood e a adaptação terá novamente Anthony Hopkins (no papel de Hannibal Lecter) à frente do elenco. Nem precisa dizer que o sucesso de bilheteria está garantido (a adaptação do livro anterior não é demais lembrar , além de extremamente bem-sucedida do ponto de vista comercial, papou todas as estatuetas principais do Oscar de 91 filme, diretor, ator, atriz e roteiro). Não por acaso, Harris escritor razoável, mas storyteller acima da média tem contrato assinado para a produção de uma nova aventura do canibal...





