Há quatro anos o Festival de Gramado abriu a programação oficial homenageando ‘‘O Cangaceiro’’, que Lima Barreto realizou em 53. A cópia, única na época, vinha de recente restauração pela Cinemateca Brasileira. E não estava em condições plenamente satisfatórias, pelas razões que se conhece e que de resto explicam a profunda amnésia cinematográfica no Brasil. Ainda assim, foi possível rever e reavaliar as qualidades e os problemas da obra.
Para surpresa de muita gente, que havia tempo não tinha contato com o filme, ‘‘O Cangaceiro’’ mostrou que teve méritos suficientes para atravessar todo esse período sem perder a força narrativa, e que o prêmio de melhor filme de aventuras no Festival de Cannes não foi mera cortesia do júri. Guardadas as devidas e prudentes proporções, foi o nosso grande western, na verdade um ‘‘nordestern’’.
Decorridos 44 anos, ‘‘O Cangaceiro’’ (veja a programação na página 4) está de volta em versão contemporânea dirigida por Anibal Massaíni Neto, filho de Oswaldo Massaíni, um dos grandes produtores brasileiros. O roteiro original, que teve dedo da escritora Raquel de Queiroz, foi reaproveitado quase em sua totalidade.
Apenas foi introduzido uma espécie de prefácio, onde um velho cangaceiro relembra a história de Maria Bonita e Capitão Galdino. O filme também ganhou cores - carregadíssimas, ao que consta - e uma overdose de sexo, violência e música, além de um elenco global.
A propósito, os atores da primeira versão eram um dos pontos altos do filme: Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton Ribeiro e Vanja Orico. Este quarteto, que vivia um envolvimento amoroso, foi agora substituído por Alexandre Paternost, Ingra Liberato, Paulo Gorgulho e Luiza Tomé. O diretor Anibal Massaíni, perito em pornochanchadas quando o gênero ditava regras num país de expressão artística silenciada, foi também por um bom tempo produtor de diversos filmes de Walter Hugo Khouri.
Pelo jeito, ‘‘O Cangaceiro’’ é a sua retomada de contato com uma realidade mais concreta e objetiva, com um cinema menos requintado e rebuscado do que o de Khouri mas potencialmente mais sintonizado com as expectativas de lazer cinematográfico do grande público. (CELJ)

mockup