O Canadá brilha em Cannes
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quarta-feira, 21 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 
Não havia mesmo razão para desesperança. Depois do multinacional ''Dogville'', ainda repercutindo intensamente após restabelecer o primado do selo de qualidade nesta mostra em parte fragilizada pela defecção de diversos autores consagrados, agora é a vez do canadense Denys Arcand injetar outra vigorosa dose de otimismo diante do que ainda está por vir neste terço final do 56º Festival de Cannes, vale dizer, uma lista de sérios pretendentes à Palma que inclui os dois últimos franceses, o sempre polêmico inglês Peter Greenaway, o russo Alexandre Sokurov e Clint Eastwood, cult permanente entre a mídia especializada européia.
Liberal e provocador, Denys Arcand deu visibilidade internacional ao cinema de Quebec, fazendo circular seus filmes no circuito de primeira linha das mostras internacionais e obtendo também a aprovação do público. Um de seus títulos de maior sucesso é ''O Declínio do Império Americano'', retrato vivo de uma geração exibido em Cannes em 1986. Olhando lá atrás, para o filme, não se pode negar, entre diversas outras virtudes, o seu tom profético. Era então, e continua a ser, uma dura crítica ao ''american way of life'', expressando nos diálogos intelectualizados e cínicos o mal-estar causado pelos descaminhos sociais, culturais e sentimentais trilhados pela sociedade americana e prevendo a ocorrência de outro desastre iminente, mais ou menos como aquele que deu a largada para a queda do império romano.
Decorridos dezessete anos, Arcand reuniu novamente seis de seus principais personagens e retomou aquela narrativa. Mas a este reencontro juntou uma nova geração, jovens deste início de milênio. Nesta retomada, Remy, um daqueles heróis dos anos 1980, está no hospital. Divorciado, cinquentão, está seriamente doente, quase terminal. A ex-mulher convoca o filho já adulto e distante. Este, por sua vez, reaproxima os melhores amigos de quase duas décadas, além de parentes e ex-amantes de Rémy. Juntos, em clima simultaneamente de réquiem e celebração, evocam os melhores momentos de suas vidas e promovem um inventário social, cultural e existencial.
Neste tempo de invasões bárbaras, é hora de saber o que foi feito do hedonismo, do bom humor, da amizade, do desejo. O que se perdeu e o que restou. Para esta avaliação que equilibra risos e lágrimas, tristeza e alegria, Arcand desacelerou o cinismo cru do filme anterior e revigorou a irreverência. Segundo a ótica de um roteiro escrito com maestria, o declínio do império americano não só continua como também aumenta em razão da investida da barbárie. ''Les Invasions Barbares'' é inteligente, ácido, emocionante, generoso. Embora alguns possam achar o filme pessimista, é de longe e paralelamente a mais corrosiva análise sobre países e instituições diversas, e a mais bem-sucedida celebração do espírito que o cinema fez em muitos anos.
Na coletiva, que a conjunção de fatores favoráveis transformou num prolongamento do prazer compartilhado durante a projeção no Grand Théatre Lumière, Arcand disse que é ''nem anti nem pro Estados Unidos, estamos todos reféns e à mercê dos americanos, e quem pode dizer alguma coisa são os iraquianos''. Sobre as muitas lágrimas do público ao final do filme, reconheceu que ''por razões misteriosas é um filme triste, que tem a magia da tristeza. Mas acho que é uma tristeza que não deprime''. Ou como acrescentou Louise Portal, uma da atrizes presentes: ''o filme abre as eclusas do coração''.


