O primeiro livro a falar sobre a resistência ao nazismo dentro da própria Alemanha foi publicado em 1947, dois anos após a queda do Terceiro Reich. De autoria do escritor alemão Hans Fallada, "Morrer Sozinho em Berlim" abordava um assunto que permaneceu guardado embaixo do tapete durante o governo de extrema direta de Adolf Hitler (1889 - 1945).

Hans Fallada coloca um teor kafkiano no jogo de gato e rato entre duas pessoas simples e um gigantesco poder político repressor
Hans Fallada coloca um teor kafkiano no jogo de gato e rato entre duas pessoas simples e um gigantesco poder político repressor | Foto: Reprodução



Após o fim da Segunda Guerra Mundial e a consequente queda do regime nazista em 1945, os documentos oficiais da Gestapo (polícia política secreta do regime nazista) foram abertos para estimular a nova produção artística da nova Alemanha. Folheando os arquivos, Hans Fallada encontrou os documentos do processo de investigação, julgamento e condenação do casal de operários berlinenses Otto e Elise.

Intrigado com a história real dos alemães Otto e Elise Hampel, executados sob a acusação de incentivaram seus compatriotas à insurreição, Hans Fallada resolveu transformar a história num romance. Publicado originalmente em 1947, a obra ficou restrita aos habitantes da Alemanha até 2006, quando surgiram as primeiras edições em outras línguas transformando o livro num fenômeno de vendas na Europa e Estados Unidos.

Agora a primeira edição brasileira de "Morrer Sozinho em Berlim" chega ao Brasil lançada pela editora Estação Liberdade. Na obra o autor transforma Otto e Elise Hampel em Otto e Elise Quangel, um casal de operários de meia-idade que vive na cidade de Berlim. Um casal que vislumbra traços de fascismo e totalitarismo no governo de Hitler, mas graças ao bom desempenho da economia, aceita o nazismo com naturalidade como grande parte da população.

Essa naturalidade é rompida quando o único filho do casal morre nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. A partir desse fato, o inconformismo toma conta de Otto e Elise. Como pessoas comuns, decidem realizar uma guerrilha de pequenos atos contra o regime nazista. Simplesmente começam a espalhar anonimamente pela cidade de Berlim cartões-postais com frases como: "Mãe! O Führer matou o meu filho! O Führer vai matar os seus filhos também, não vai parar antes de levar o sofrimento a todos os lares do mundo..."

Otto e Elise deixam, com total discrição, os cartões-postais em bancos de praças, prateleiras de mercearias, escadas de escolas, mesas de restaurantes, etc. Aquilo que seria uma postura de resistência inofensiva e quase ingênua diante da máquina de guerra e de poder do Führer, desperta a atenção da alta cúpula do Terceiro Reich.
A polícia política de Hitler desenvolve uma grande investigação para encontrar os traidores que ameaçam o poder nazista dentro da própria Alemanha. Quando finalmente descobrem que um casal de operários completamente insignificantes são responsáveis pelos cartões-postais, não conseguem entender como foram ludibriados por dois humildes pais sofrendo pela morte do filho.

Hans Fallada coloca um teor kafkiano no jogo de gato e rato entre duas pessoas simples e um gigantesco poder político repressor. A partir de duas formiguinhas diante de um gigante colossal, o regime nazista é apresentado do ponto de vista de cidadãos comuns alemães vivendo situações básicas do cotidiano.
O escritor deixou registrado seu interesse sobre o caso Otto e Elise Hampel com as seguintes palavras: "O casal Hampel, duas pessoas solitárias e desimportantes no norte de Berlim, inicia em certo dia de 1940 a luta contra a máquina absurda do Estado nazista e acontece algo grotesco: o elefante sente-se ameaçado pelo camundongo."

Hans Fallada nasceu em 1893 com o nome de Rudolf Ditzen. Em 1920 adotou o pseudônimo de Hans Fallada em homenagem ao lendário personagem dos contos dos Irmãos Grimm. Com uma infância complicada, sua vida foi marcada pelo vício em morfina e álcool. Passou várias temporadas em clínicas de recuperação e chegou a ser confinado num manicômio nazista considerado como "elemento indesejado" para o regime. Faleceu em fevereiro de 1947, semanas antes da primeira edição de "Morrer Sozinho em Berlim" chegar às livrarias da Alemanha.


Imagem ilustrativa da imagem O camundongo contra o elefante
| Foto: Reprodução


Serviço:
"Morrer Sozinho em Berlim"
Autor - Hans Fallada
Editora - Estação Liberdade
Tradução - Claudia Abeling
Páginas - 640
Quanto - R$ 84


Fragmento:

Não era verdade. Hitler não era seu Führer, ou não mais do que para Anna. Sempre foram da mesma opinião de que, em 1930, quando sua pequena mercearia quebrou, tinham saído do atoleiro graça ao Führer. Depois de quatro anos desempregado, ele tinha se tornado encarregado de oficina numa fábrica de móveis e agora todas as semanas trazia quarenta marcos para casa. Era uma quantia suficiente para se virem bem. Isso acontecera por intermédio do Führer, que havia colocado a economia de volta nos eixos. Sempre compartilharam da mesma opinião. Mesmo assim não haviam ingressado no partido.

(Fragmento de "Morrer Sozinho em Berlim", de Hans Fallada)

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