Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha
Quem se aventurar pelas 742 páginas de ‘‘O Círculo da Cruz’’ (Editora Record, R$ 65,00), de Iain Pears, vai se deparar com um daqueles exóticos livros que misturam a banalidade dos enredos detetivescos com uma reconstituição de época enciclopédica. Sim, a comparação com ‘‘O Nome da Rosa’’, marco do gênero, é inevitável, mas as semelhanças entre os dois livros é mínima. Assim como o livro de Eco, ‘‘O Círculo da Cruz’’ trata de um misterioso assassinato e se passa num tempo remoto, o século XVII. As semelhanças terminam aí.
‘‘O Círculo da Cruz’’ é composto por quatro relatos escritos por quatro personagens que viveram de perto a morte do Dr. Grove na prestigiosa Universidade de Oxford, logo após os distúrbios que se sucederam à tentativa da instauração de uma república na Inglaterra, por Oliver Cromwel. Marco de Cola, autor do primeiro relato, é um médico veneziano que diz estar em Oxford para tentar recuperar uma fortuna perdida por sua família. Os demais relatos se originam como réplicas deste primeiro. Jack Prescott, o segundo a contar sua versão do assassinato, é o filho de Sir James Prescott, acusado de alta traição e cuja mácula pesa nos ombros do jovem, que tenta a todo custo resgatar a honra do pai, que tem por inocente. O terceiro relato é o do Dr. Wallis, exímio matemático, perito em criptografia, cujo objetivo maior na vida se resume a vingar a morte de seu pupilo, Matheew, que atribui a Marco de Cola. E o último dos relatos é o do Sr. Woods, um pacato antiquário e bibliófilo. Todos os relatos terminam com a condenação à morte de Sarah Blundy, ex-empregada do Dr. Grove. A personagem Sarah Blundy foi baseada na história de Anne Green, condenada à fogueira em 1655. Aliás, quase todos os personagens de ‘‘O Círculo da Cruz’’ são reais, como o químico Robert Boyle, o médico Richard Lower e o filósofo John Locke.
O leitor descuidado pode pensar que o último relato, do Sr. Woods, é a chave para o mistério que permeia todo o livro. Engana-se. Iain Pears construiu um mistério praticamente insolúvel e instiga o leitor a concluir por si o assassinato do Dr. Grove. Ao usar quatro vozes que a seu modo relatam aquilo que têm por verdadeiro, cria um rede subliminar mais intrincada do que o próprio caso do assassinato. As versões estão inegavelmente poluídas pela personalidade dos envolvidos. Cabe ao leitor, em suma, a palavra final.
O que não é nada fácil. A fria e intolerante Inglaterra do século XVII é um turbilhão de ressentimento que se misturam a novas idéias científicas, que por sua vez entram em conflito com os dogmas da Igreja Anglicana, que tenta a todo custo manter sua independência e mostrar sua supremacia sobre a Igreja Católica. Tudo isso em meio a um povo miserável, primitivo em muitos dos seus hábitos, e uma Corte cheia de corrupção.
O grande mérito de Iain Pears é fazer o leitor leigo entrar num universo que parece estar há milhões de anos-luz da nossa realidade de computadores e pretensa democracia. Não há, porém, por parte do autor, discursos defendendo a modernidade, tampouco há ranço de saudosismo. Com muita naturalidade Pears traça os contornos de uma sociedade que, o leitor descobre pouco a pouco, em essência continua a mesma, privilegiando uns poucos, culpando sempre os mais pobres e com governantes que são capazes de fazer absolutamente tudo para se manterem em seus postos.
Umberto Eco, no seu mais famoso livro, também nos transporta para a Idade Média com grande realismo. Mas o enfoque é outro. Os assassinatos no mosteiro são apenas um pretexto usado por Eco para atingir o grande público com suas discussões semióticas. Que outro autor de romance policial gastaria páginas e páginas discutindo se Jesus riu ou não riu durante a vida? Iain Pears apenas usa de seu extenso conhecimento de história para criar uma atmosfera psicológica necessária à trama e à posterior conclusão do crime.
No desalentador cenário dos romances policias, quando os autores não se envergonham mais de plagiarem-se uns aos outros, ‘‘O Círculo da Cruz’’ é um oásis de inteligência por não fazer concessões ao leitor. Descobrir o assassino do Dr. Grove é muito mais do que fazer conexões lógicas como nos livros de Agatha Christie. É na compreensão do contexto histórico e da peculiar mentalidade de homens passionais em seus múltiplos interesses, sejam eles medicina, política ou religião que se encontra a solução para a equação. Solução esta que, adianto, pode ser apenas mais uma variável.
O título do livro evoca um aforismo do filósofo Francis Bacon, sobre a duplicidade das aparências. Reza o dito do filósofo: ‘‘Quando em um estudo de qualquer natureza a compreensão permanece suspensa, o caminho verdadeiro e irrefutável a seguir é indicado por uma estrada na própria estrada que se vem percorrendo. (...) Às vezes, de fato, a placa com o dedo indicando o caminho a seguir está em uma encruzilhada por onde já passamos sem a ver’’.
Ou seja, o óbvio está a sua frente. Cabe a você percebê-lo.Livro de Iain Pears define o caminho verdadeiro como aquele pelo qual passamos sem ver
Entre banalidades e uma reconstituição de época enciclopédica, o livro ‘‘O Círculo da Cruz’’, de Iain Pears, é leitura instigante e passional sobre um mistério praticamente insolúvel, que acontece numa Inglaterra do século XVII envolvida em conflitos até a alma

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