São Paulo, 10 (AE) - Hilda Hilst diz que se sente esquecida. Mas fora o limbo financeiro, a escritora volta e meia é invocada de seu esconderijo em Campinas, local onde, pela primeira vez, se falou da possibilidade de transformar "O Caderno Rosa de Lorí Lamby" em montagem teatral. Amanhã (11), quase dez anos, depois a peça entra em cartaz no Núcleo Experimental de Teatro (N.Ex.T.), pelas mãos de Iara Jamra, Bete Coelho e Daniela Thomas.
Foi Caio Fernando Abreu, conta Hilda, quem primeiro sugeriu a ida da pequena Lorí para os palcos. Iara lembra que o escritor e amigo serviu como ponte entre ela e Hilda, que topou a proposta de cara. Na mesma época, Bete declarou em uma entrevista na TV seu interesse em montar a história da filha de escritor e seu caderninho. "Então, Hilda me telefonou, topando, sem saber da proposta da Iara", conta a atriz que assina a direção. "As paralelas, às vezes, se cruzam."
Desde esse cruzamento inicial se passaram oito anos, "necessários", segundo a diretora Bete Coelho, que pensava em viver Lorí sob a direção de Daniela (que assina o cenário). "Quando soube do interesse de Iara em representar o papel, não tive dúvidas de que ela era perfeita", lembra a diretora.
Mas engana-se quem acha que é a voz aguda de Iara que lhe valeu o papel no monólogo. "Essa personagem é muito mais do que uma criança, é uma grande mulher, uma velha, um homem, uma artista diante das limitações do mercado e da libertação pela arte", afirma Bete. "É um papel grandioso porque é construído a partir da perspectiva da própria Hilda, que propõe uma criação libertária em todos os sentidos."
Iara concorda que é grande a sua responsabilidade no espetáculo, que foi apresentado, em sua fase de obra aberta, no Festival de Curitiba e no evento Mundão, ambos do ano passado. "Mas o papel cresceu muito a partir dessas apresentações", conta a intérprete da menina de 8 anos que, em reação à pressão do mercado editorial sobre o pai, desanda a trancrever suas fantasias eróticas e outras observações sobre o tema em um bloco de anotações.
"É meu maior desafio como atriz", diz Iara, que utilizou para a criação de sua Lorí não só a obra de Hilda, como também as frases sempre cortantes que a escritora solta no meio das conversas. São colocações como: "Talvez eu veja a peça, contanto que eu possa entrar pelas portas do fundo do teatro sem que ninguém me veja." De fato, Hilda tem uma atitude artística peculiar que não se separa de sua obra. Há duas semanas, por exemplo, a escritora teve sua obra poética completa publicada pela Massao Ohno sob o título de "Do Amor" e não quis participar do lançamento. "Não suporto essas câmeras entrando até as minhas amídalas e não gosto que as pessoas vão aos lançamentos para ver-me, quero que me leiam."
Não à toa, o texto da montagem, adaptado por Reinaldo Moraes, preservou na íntegra os termos e frases da autora. "Só cortamos partes para encaixar o livro no tempo teatral", afirma Bete. A opção em manter a crueza e a riqueza pornográfica (Hilda tem o hábito de colecionar e utilizar sinônimos de palavras vetadas pela maiorias dos manuais) afastou os patrocinadores. O único empresário a investir nos espetáculos (descontadas as permutas) foi Fabio Cimino, dono da Galeria de Arte Brito e Cimino. "O restante foi dos nossos bolsos", conta Iara.
O cenário, que a diretora define como terra de ninguém, traduz a idéia ambígua da inocente provocação de Lorí. Daniela inventou uma cama desproporcionalmente grande, na qual a personagem atua. "A idéia da cama gigante é servir de submundo, de esconderijo para o segredo de Lorí, ou seja o que ela escreve em seu caderno." Mas que muda de sentido, quando cresce o lado maduro de Lorí-Hilda, que sobe e desce da estrutura, como quem não conhece o limbo. O Caderno Rosa de Lorí Lamby. Monólogo. De Hilda Hilst. Direção de Bete Coelho. Com Iara Jamra. Duração de 45 minutos. De quinta a domingo, às 21h30. R$ 15,00. Núcleo Experimental de Teatro. Rua Rego Freitas, 454, tel. 259-2485. São Paulo. Estréia amanhã (11), às 21h30.

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