O CAÇADOR DAS IMAGENS PERDIDAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza 
É difícil conversar com Martin Scorsese. Não que seja estrela inacessível, pelo contrário, em anos recentes tem sido intenso o trânsito do diretor pelo eixo Cannes-Veneza, e a cada visita o acesso a ele vem se tornando mais fácil. E pelo próprio Scorsese, empenhadíssimo em criar as melhores condições de marketing para uma atividade que hoje consome até mais de 50 por cento de seu tempo, de resto sempre escasso: a descoberta e/ou recuperação de filmes ameaçados por perigos diversos, desde a irrefreável ação do tempo até o próprio descaso ou a incúria de gente, por incrível que pareça, ligada ao próprio cinema. Ele está no Festival de Veneza para apresentar o resultado de duas ''UTIs'', de salvamentos em casos extremados. São duas obscuras produções ítalo-americanas dos anos 30, das quais quase ninguém ouviu falar, realizadas em condições precárias nos Estados Unidos: ''Santa Lucia Luntana'', de 1931, e ''The Movie Actor'', de 32. O primeiro rodado entre imigrantes italianos em Nova Jersey, e o segundo, de 15 minutos, sobre um cômico napolitano considerado importante por sua expressão, já que se comunicava num dialeto hoje desaparecido.
Quando o repórter da Folha liga para o número de contato, a surpresa: quem atende o celular não é a assessora de imprensa, mas o próprio Scorsese. ''Será um prazer'', diz ele, confirmando qual o jornal, de que país e se a conversa pode ficar para o dia seguinte, às 4 da tarde, em sua suite no Hotel Excelsior. Nenhum problema, claro. Na hora marcada, quem recebe a reportagem é a assessora mas Scorsese chega cerca de dez minutos depois. Impecável num terno azul marinho, gravata idem sobre camisa amarelo-claro com a gola e os punhos brancos, logo na primeira resposta o diretor mostra porque é difícil conversar com ele. Quando se debruça sobre cinema, o velho ou o novo, o salvo ou o ameaçado, o diretor de ''Touro Indomável'', uma das obras-primas dos anos 80, se transforma, por vezes radicaliza. Como um adolescente inflamado - e iluminado - pela paixão ou pela indignação, Martin Scorsese, 59 anos, fala pelos cotovelos, e em alta rotação. O problema é encontrar o tempo certo, ou na melhor das hipóteses aproximado, para encaixar a pergunta seguinte.
Por que o senhor resolveu restaurar exatamente esses dois filmes?
Porque são dois raríssimos exemplos, as duas únicas peças sobreviventes de um cinema ítalo-americano nascido em Nova Jersey nos anos 30. Uma pequena indústria feita sobre imigrantes e por imigrantes, nos elencos atores italianos do teatro popular interpretando temas de suas próprias raízes. Mas também existe, neste caso especialmente, razões muito pessoais. Venho de uma família siciliana muito pobre, que chegou aos Estados Unidos em 1910. Mas uma irmã de minha mãe se casou com um ítalo-americano que fez fortuna trabalhando no setor de construção em Nova Jersey. Para mim, visitá-los quando criança era um evento, pois tinham projetor de cinema. Era um lugar encantado. Mas depois tinha que voltar logo para casa, porque volta e meia eu tinha ataques de asma. Tinha cinco anos quando vi ''Paisà'', de Rosselini, e então me apaixonei pelo cinema. E quando você me pergunta por que faço isto, é como se me perguntasse por que me agrada a vida. Filmes, de ontem e de hoje, não importa, são o meu sangue.
Foi só para apresentar em Veneza estas duas restaurações que o senhor interrompeu a pós-produção de seu novo filme (NR: ''Gangs de Nova York'', com Leonardo Di Caprio, deve estrear nos Estados Unidos no Natal)?
Quis trazer pessoalmente à Mostra as novas criações da minha companhia, ''Film Foundation'', criada em 1990 para salvar filmes do passado - em especial os italianos - e mantida também por outros amigos, como Woody Allen, Robert Altman, Francis Coppola, Clint Eastwood, George Lucas, Sidney pollack, Robert Redford, Steven Spielberg e Stanley Kubrick. Por sorte, para dar uma mão na empreitada, conto com um substancial suporte financeiro da Telecom Italia. Esses dois filmes que trouxe comigo foram restaurados já com este valioso patrocínio, de cerca de 200 mil dólares.
Michael Cimino (NR: diretor de ''O Franco Atirador'' e ''O Portal do Paraíso''), que também veio a Veneza lançar seu primeiro romance, ''Big Jane'', disse na entrevista coletiva que as duas principais razões para explicar a atual crise do cinema americano são as muitas escolas de cinema e os muitos filmes antigos que são mostrados aos estudantes. O que o senhor diz sobre esta afirmação?
Gostaria de discutir com Michael sobre este assunto. Quanto à proliferação das escolas de cinema dou razão a ele. Há de fato muitas, parece mesmo que virou moda, quando eu estudei no início dos anos 60 havia muito poucas. Mas o importante é esclarecer a função. Não se pode pedir a uma escola mais do que ela pode dar: ensinar um pouco de teoria e um pouco de prática. O talento e todo o resto ficam por conta do aluno. Agora, quanto aos filmes do passado, quem faz cinema sem levar em conta a história é como trabalhar no vazio, sem nenhuma finalidade, inutilmente. O passado enriquece, cria novas idéias. Quem estuda arte deve ir ao Louvre ver os grandes mestres, quem quer fazer cinema deve ver filmes, de todos os tempos, mas principalmente as obras-primas do passado.O problema é outro: no meu tempo, os filmes em preto e branco dos grandes diretores eram vistos nas salas comerciais, na tela grande dos cinemas. Hoje não mais, somente são vistos em salas especializadas ou em universidades. Como se pode fazer cinema, ou mesmo tornar-se apenas um bom espectador, se alguém nunca viu ''Ladrões de Bicicleta'' ou ''Rocco e Seus Irmãos''? Ou não conhece Bergman ou Kurosawa? É certo que assistir nas salas era uma outra emoção, enquanto uma projeção em sala de aula pode tornar-se apenas um estímulo intelectual. E fazer cinema sem emoção é não ter estilo.
Algum próximo projeto de ''resgate'' de tesouros antigos?
Os detalhes do acordo com a Telecom serão definidos tão logo eu conclua ''Gangs de Nova York'' e o trabalho de legendagem em inglês do meu documentário ''Il Mio Viaggio in Italia'' (NR: apresentado na íntegra este ano em Cannes, o filme tem quatro horas e meia de duração e faz completo inventário das melhores fases do cinema italiano). Hoje já estamos trabalhando na restauração de ''Vanina Vanini'', ''Vagas Estrelas da Ursa'' e outros filmes de Luchino Visconti. A parceria com a Telecom é exclusiva para recuperar filmes italianos, mas seria maravilhosos se em todos os países os governantes fossem sensibilizados sobre a importância do patrimônio cultural representado pelo cinema.
Nesses primeiros dias do Festival de Veneza temos visto diversos filmes com excessiva dose de violência. Na sua filmografia, a violência explícita tem lugar de destaque. O que o senhor diz a respeito?
A violência faz parte da vida, não é bom escondê-la. Nos meus filmes ela nunca é um fim em si mesma, mas sempre catártica. Em todas as minhas histórias há um final moral, os maus não vencem jamais porque não têm razão.
O senhor filmou ''Gangs de Nova York'' nos estúdios romanos de Cinecittà, e segundo informações, utilizando muitos efeitos especiais. O que o senhor pensa sobre eles, para alguns a ruína do cinema americano?
É o mesmo discurso sobre a violência, depende de como se usa. Pessoalmente não posso deixar de ser agradecido aos efeitos digitais. Se não fossem por eles, não teria sido possível reconstruir a minha Nova York do final do século 19.
O senhor tem alguma informação sobre o cinema brasilero mais recente?
Minhas intensas atividades profissionais entre Estados Unidos e Itália não permitem estar atualizado com o cinema que se faz em muitos países. Minhas boas lembranças de cinema brasileiro são aqueles do Cinema Novo, os filmes de Glauber Rocha, Pereira dos Santos, Diegues. Não me lembro depois de outras referências, mas tenho notícias recentes muito positivas sobre um renascimento, no Brasil e também na Argentina.
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