Depois de anos, o diretor Walter Avancini retorna à Globo e imprime seu estilo, que pode ser conferido através dos bons índices de audiência de ‘‘O Cravo e a Rosa’’
Aos 65 anos, Walter Avancini é um prodígio da resistência. No final de 1999, depois de dez anos longe da Globo, ele retornou à emissora que ajudou a levar ao topo. Na bagagem, algumas obras-primas, como as novelas ‘‘Gabriela’’ e ‘‘Saramandaia’’. O trabalho que marcou sua volta à Globo – o episódio ‘‘A Filha de Maria’’, do ‘‘Você Decide’’ – foi discreto. Mas ele não se importou e esperou o momento certo para deslanchar. Um ano depois, festeja as quatro categorias vencidas por ‘‘O Cravo e A Rosa’’ na eleição anual promovida pela ‘‘TV Press’’: melhor novela, diretor, atriz coadjuvante para Leandra Leal e atriz revelação para Vanessa Gerbelli. ‘‘Sempre acreditei na parceria de autores, diretores e atores. Não podemos fazer tevê com o intuito puramente comercial porque estamos atingindo uma massa da população que tem a tevê como único acesso à arte’’, ressalta.
‘‘O Cravo e A Rosa’’ reafirma o estilo Walter Avancini de fazer televisão: técnica aliada à criatividade, ênfase no conteúdo da obra e exigência máxima dos profissionais envolvidos. Nos últimos dez anos, Avancini esteve à serviço do SBT e da extinta Manchete. Nas duas emissoras, ele provou o gosto amargo do fracasso: ‘‘Brasileiras e Brasileiros’’ e ‘‘Brida’’. ‘‘Foram apenas dois momentos de insucesso em 40 anos de carreira. Estamos cheios de sucessos de audiência no ar. Muitos deles, lastimáveis. Não quero ter um sucesso lastimável nunca’’, afirma.
Longe dos estúdios de tevê, Walter Avancini é ainda mais misterioso. Trabalhador compulsivo, quando não está fazendo televisão, está assistindo televisão. De preferência, esporte e telejornais. Fora isso, gosta do ‘‘Casseta & Planeta, Urgente!’’, que considera ‘‘o programa atual de maior importância da tevê brasileira’’. Do próprio Avancini, sabe-se apenas que se chama Nunciato, mora no Leblon, na Zona Sul do Rio, e tem quatro filhos. E é só o que ele fala de sua vida pessoal. ‘‘Às vezes, me sinto um computador programado para viver a vida em função do veículo em que trabalho’’, define.
A que você atribui o sucesso de ‘‘O Cravo e A Rosa’’, que vem atingindo uma média de 30 pontos de audiência e picos de 39?
A Globo sempre manteve uma postura condizente com o padrão de qualidade que estabeleceu. A eventual perda deste padrão seria um desastre para a emissora. Por isso, ela não pode se dar ao luxo de manipular os mesmos signos das outras emissoras, como nudez e violência. A Globo tem de ser coerente com a imagem, o padrão e a estética que desenvolveu nos últimos 35 anos. Mas isso depende dos profissionais que buscam um conceito de responsabilidade dentro do que fazem. É preciso apostar sempre em produtos de forte identificação popular sem perder a identidade ou abrir mão da qualidade. Qualidade não significa elitismo ou falta de comunicação. Não há essa incompatibilidade. É isso que a Globo vem provando com ‘‘Chiquinha Gonzaga’’, ‘‘O Auto da Compadecida’’ e ‘‘O Cravo e A Rosa’’, entre outros.
Como você avalia o atual momento da tevê brasileira quanto à busca pela audiência?
A tevê vive um momento de perplexidade muito grande. O alargamento do público telespectador nas chamadas classes C e D provocou uma alteração no comportamento da audiência na tevê aberta. Como não houve progresso educacional e cultural nos últimos anos, os signos das classes C e D ficaram muito fortes dentro da tevê brasileira. Que tipo de homem pode ter sido formado em 21 anos de ditadura, cinco de Sarney e dois de Collor? Por isso, emissoras que trabalham dentro de signos populares se fortaleceram também. É uma questão de oportunismo? É natural que sim. Mas a tevê é consequência do quadro social, econômico e cultural de um país. Particularmente, procuro inserir ideologia no meu trabalho. Não me conformo em usar comercialmente o telespectador.
Mas qual é ou, pelo menos, deveria ser a principal finalidade da televisão?
R - A tevê é, antes de tudo, o resultado da cultura brasileira e, como tal, tem de representar a sociedade na qual está inserida. O nível cultural e de informação de um povo é o que determina o nível da programação da tevê. Quando houver elementos de educação que aproximem a população de elementos artísticos mais sensíveis, a tevê vai ser muito diferente. Enquanto isso não acontece, ela se limita a explorar a triste realidade que aí está. O risco da tevê comercial é justamente o de dar continuidade a esse círculo vicioso sem desenvolver uma visão crítica. O profissional que faz tevê se obriga a isso. Porque o empresário que vive da comercialização do produto só pensa nos lucros e no resultado imediato da audiência. Afinal, se ele não conseguir audiência, vai à falência. Não dá é para colocar a tevê como algo missionário. Essa não é, definitivamente, a função dela.
Depois de 10 anos, você retornou à Globo e não encontrou a mesma supremacia de audiência de antes. Isso facilita ou dificulta o trabalho?
Durante anos, a Globo manteve-se absoluta na liderança. Até quando saía do ar, a emissora mantinha razoáveis índices de audiência. Com os aparelhos de tevê mais baratos, as classes C e D entraram no mercado e criaram espaço para programas mais populares, como o do Ratinho, por exemplo. Atualmente, a Globo enfrenta um tipo de competição que, no passado, só acontecia eventualmente. Por conta disso, tem de entender esses novos signos sem perder a própria identidade. Mas, no fundo, essa perda de supremacia obrigou os profissionais da Globo a se renovarem. Afinal, eles corriam o risco de se acomodarem num sucesso que parecia natural pelo próprio monopólio de audiência. Ganhar sempre pode levar à mesmice.
Você acha que a auto-regulamentação da tevê é a medida mais eficaz para coibir os exageros de certos programas, como o do Ratinho, por exemplo?
Infelizmente, vivemos numa sociedade muito rasa do ponto de vista cultural. Todos temos culpa nisso. Eu também me sinto culpado, embora sempre tenha trabalhado noutra direção. A verdade é que não podemos simplesmente tapar o sol com peneira. Censurar um programa de tevê é como censurar a própria realidade brasileira. As pessoas não querem mostrar a cara que o Brasil tem hoje. Não só no que diz respeito à sexualidade, mas no que diz respeito à violência também. A violência do dia-a-dia é muito maior do que a de qualquer novela. Particularmente, acho que os homens de tevê podem e devem encarar essa situação com olhos mais responsáveis. No mais, é o público que tem o poder de ligar ou não a tevê, mudar ou não de canal.
Na Manchete, você tinha o hábito de recorrer a inúmeros artifícios para melhorar os índices de audiência. Na Globo, você parece estar mais comedido no que diz respeito à sexualidade e à violência. O que aconteceu?
Na Manchete, eu não tinha as mesmas condições de trabalho que tenho na Globo. Muito pelo contrário. As realidades são bem diferentes. Fora da Globo, ninguém consegue manter um padrão de qualidade razoável. Mesmo assim, fiquei satisfeito com o resultado que obtive em ‘‘Xica da Silva’’. Quando você está numa emissora que tem um quadro de audiência muito baixo, tem de criar elementos de marketing para chamar a atenção e garantir o patrocinador. Foi por isso que convidei a Cicciolina, por exemplo, para fazer ‘‘Xica da Silva’’. Na Globo, isso não é necessário. A emissora, por si mesma, já é o grande marketing. Tudo o que se coloca nela já tem um marketing assegurado. O que você precisa é elaborar um produto para fazer crescer o que já é grande. Acho que foi isso que fiz em ‘‘O Cravo e A Rosa’’.
Você saiu da Globo sob a gestão do Boni e voltou sob a de Marluce Dias da Silva. Você não acha que a Globo perdeu muito com a saída do Boni?
Não há dúvida. Sempre disse que, quando o Boni saísse da tevê, voltaríamos para os anos 50. Não foi isso exatamente que aconteceu, mas qualquer emissora do mundo perderia com a saída do Boni. Mas a Globo tem profissionais capacitados para minimizar essa perda e ocupar a lacuna deixada por ele. Talento e competência, eles têm. Que a dedicação os leve a encontrar o caminho certo...

mockup