O brilho do interior
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de abril de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Albari RosaNeno Meirelles com a primeira-bailarina Eleonora GrecaOs caminhos de um artista nem sempre seguem em linha reta. Que o diga o bailarino Neno Meirelles, londrinense de 20 anos, que participa da montagem de Coppelius, o Mago, superprodução do Ballet Teatro Guaíra, em cartaz até domingo no Guairão. Estagiário do BTG defende o papel de taberneiro, um homem rústico da aldeia onde transcorre toda a história.
Nascido e criado na zona rural, antes da família mudar-se para a periferia de Londrina, Neno deixou-se atrair pelo brilho das artes acompanhando novelas num velho televisor. As imagens em branco-e-preto o fascinavam e nos ermos de sua existência sonhava com o dia em que estaria nas telas, no folhetim eletrônico.
O único entre os 11 irmãos a ambicionar o sucesso e a fama. De físico longilíneo chamou a atenção de um ator que acenou com a possibilidade dele ser bailarino. Vislumbrando uma ponte entre seus dias londrinenses e os da capital, desceu em Curitiba sem nunca ter estado sequer numa academia. A intenção continuava a de ser ator.
Seguindo o conselho do amigo fez um teste - e passou - na Escola de Dança Clássica do Teatro Guaíra. Foi uma descoberta para ele o mundo das sapatilhas, música, condicionamento físico, exercícios, a procura constante pelo aperfeiçoamento dos passos. Atualmente cursa o quinto período da escola, o segundo ano da Faculdade de Artes do Paraná e é estagiário do BTG.
Albari RosaCena de Coppelius, o Mago, em cartaz no Teatro Guaíra
Entrar para o corpo de baile do teatro representou para Neno uma ascenção importante. Agora ele tem um salário que o auxilia na sobrevivência. Para se manter, o bailarino passou por todas as dificuldades que uma pessoa sem um tostão enfrenta na cidade grande.
Por algum tempo defendeu seus trocados vendendo pão, que ele mesmo fazia, aos colegas e professores da Escola de Dança e da faculdade. Nessas andanças esticava até o teatro e a Secretaria da Cultura. O pior já passou, imagina Neno Meirelles. Este é o ano do início do crescimento- celebra.
ObstinaçãoPara quem chegou aos 16 anos numa cidade desconhecida, com um sonho na cabeça e nenhum dinheiro no bolso, os degraus que galgou são significativos. Para ele são quase remotas as imagens do pai trabalhando como colono nas fazendas, ele ajudando nos deveres de casa, a família muito pobre.
A situação mudou para melhor. Os irmãos mais velhos casaram, os mais novos trabalham e estudam. Todos estão encaminhados- orgulha-se. Ele guarda como leis os conselhos de Márcia Haydée sobre a dura caminhada artística. É preciso obstinação.
De figurante na primeira montagem para dono da taberna nesta reestréia todos os indícios são de progresso para o bailarino. Marta Nejm (diretora do BTG) me deu um presente- conta envaidecido. Sem tempo e sem dinheiro para visitar a família (vai uma vez ao ano a Londrina. Quando liga para casa, a mãe chora de saudade), direciona os passos para o futuro. Estou me dedicando ao máximo, estou no auge do meu início- segreda.


