O BRILHO DA SARJETA
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Se você percorrer as livrarias procurando algum livro de João Antônio, andará em vão. Gastará sola de sapato. Sem falar na desconcertante situação de entrar numa loja e educadamente perguntar à balconista sobre algum livro de João Antônio e ouvir: João Antônio de quê?
É compreensível. Afinal como um escritor pode chamar-se apenas João Antônio e mais nada? Talvez uma simples brasilidade à prova dàgua. Na realidade ele foi registrado como João Antônio Ferreira Filho. Nasceu na periferia da cidade de São Paulo em 1937 e aboliu o próprio sobrenome do mesmo modo que dos personagens de suas histórias. Personagens que têm apenas prenome e, na maioria dos casos, simplesmente apelidos. Gente que não possui sobrenome a zelar e, por isso, são o que são. Quase nada, mas detentores de uma existência extremamente realista e sincera.
Grande parte das personagens que povoa essa galeria são pessoas comuns deslocadas da sociedade oficial. Marginais ou marginalizados. Um desfile de bêbados, mendigos, prostitutas, sambistas, jogadores, pivetes, larápios, boêmios, pobres e miseráveis. Todos em busca da sobrevivência, a mais humilde possível.
Numa atitude louvável a editora Cosac & Naify está colocando a literatura de João Antônio nas livrarias novamente. Acaba de reeditar Abraçado ao Meu Rancor, último de livro de contos do escritor publicado em 1986. Numa bela edição, o volume reproduz as ilustrações de Rubem Grilo criadas originalmente na época, além de prefácio do professor Alfredo Bosi.
É impossível falar do gênero conto dentro da literatura brasileira sem citar a obra de João Antônio. Ele levou para o conto algumas características da crônica e da reportagem jornalística. Em alguns de seus textos, o leitor tem a impressão de estar lendo um conto e, ao mesmo tempo, uma crônica ou ainda uma reportagem que volta a ser um conto. Trabalhava com essas transformações de maneira não demarcada, mas híbrida.
Nesse sentido é necessário ressaltar como João Antônio levou sua experiência de jornalista para a literatura e vice-versa. Seus contos são inundados de referências autobiográficas, pessoais e jornalísticas. Ele resgata a tradição boêmia de Lima Barreto (seu herói) para as transformações urbanas das grandes cidades. E a sobrevivência dos humildes e destroçados nesse meio- ambiente.
Embora tenha falecido em 1996, a produção de João Antônio se concentrou entre as década de 60 e 80. Nesse período publicou seus livros mais significativos: Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), Leão-de-Chácara (1973), Malhação do Judas Carioca (1975) Casa de Loucos (1976), Lambões de Caçarola (1977), Ô Copacabana! (1978), Dedo Duro (1982) e Abraçado ao Meu Rancor (1986). -
Em seus últimos escritos, fica mais evidente sua depuração de linguagem. O conto Maria de Jesus de Souza, que integra Abraçado ao Meu Rancor, é um belo exemplo disso. Narrado pela voz de uma prostituta que vagueia pelas ruas do Rio de Janeiro, reproduz a velocidade oral da personagem tentando entender o que se passa ao seu redor para superar as situações mais adversas. A malandragem, sempre acompanhada de doses de dores e humor, com suas gírias e todas a características que remetem aos sambistas do passado, se faz presente de maneira indireta.
Outro conto que aponta nesse sentido é Guardador. Narrado por um guardador de carro que enfrenta o drama de não receber a gorjeta dos veículos que cuida, apresenta o desespero de quem necessita diante dos que possuem mais que ele. Dedicado a Cartola, o conto foi escolhido por Ítalo Mariconi para integrar Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Editora Objetiva, 2000). Detalhe: sem citar a fonte original, infelizmente.
Dois textos de Abraçados ao Meu Rancor são ambientados no Norte do Paraná, Sufoco e Televisão. O motivo é simples. João Antônio morou em Londrina durante o ano de 1975, quando trabalhava como jornalista no histórico jornal Paronama. Como cronista, mantinha no periódico uma coluna semanal intitulada Jacarandá, sempre ilustrada por Cláudio Cambé. Jacarandá é justamente o nome de vários de seus personagens, em contos distintos.
Em Televisão, por exemplo, Jacarandá é um agricultor do Norte do Paraná que segue todos os dias para a cidade na tentativa de conseguir um empréstimo bancário para a lavoura. Sua intenção é plantar menta, ao contrário de café, a febre da época. Recebe dezenas de não e, depois, assiste na televisão os mesmos gerentes de bancos que lhe disseram não, informando que qualquer pessoa que necessitar de empréstimos, é só procurá-los. A história termina em radicalidade.
Já em Sufoco, João Antônio narra a angústia de um juiz de futebol durante uma partida entre Londrina e Curitiba no estádio Vitorino Gonçalves Dias. Apitando mal a partida, é envolvido por um processo nebuloso que lhe rouba o real discernimento das jogadas. Mas a fúria da torcida não recai apenas em seus possíveis erros de arbitragem, mas por ser negro.
Filho de português com uma mestiça carioca, João Antônio nasceu numa família pobre. Trabalhou como office-boy, balconista e bancário. Mas graças ao interesse pela leitura, tornou-se jornalista. Trabalhou nos principais jornais e revista do país. Foi um dos fundadores da Realidade e o criador do termo Imprensa Nanica (utilizada para designar a imprensa alternativa que florescia nos anos do regime ditatorial brasileiro) através de um artigo publicado no Pasquim.
A alma da literatura de João Antônio pode ser apreciada em Abraçado ao Meu Rancor, conto que dá título ao livro. Fazendo uso de um forte testemunho autobiográfico, o autor devassa sua consciência aprisionada entre dois mundos: as origens humilde e a projeção artística. Numa simples viagem para o subúrbio, o narrador refaz sua trajetória existencial de abordagem social. Num texto trafegando entre os gêneros conto, crônica e reportagem, João Antônio desenha um impasse emocional no plano humano e profundamente atual no plano social.
Abraçado ao Meu Rancor - De João Antônio, Cosac & Naify Edições (telefone: (11)255-8808 / a-mail: [email protected]) introdução de Alfredo Bosi, ilustrações de Rubem Grilo, 208 páginas, R$ 29,00.


