O brilho da estrela solitária
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de maio de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoMattew McConaughey e Kris Kristofferson, em Lone StarQuem quiser conhecer o cinema norte-americano com substância e realmente interessante deve marcar um encontro com Lone Star - Estrela Solitária , produção escrita, dirigida e editada por John Sayles, uma espécie de teimosa alma corsária da vertente absolutamente, genuinamente independente made in USA . Lone Star é uma tentativa de se fazer grande épico americano. Neste sentido é incompleto, quando não falho, por causa de suas ambições pouco modestas. Mas é só o que se pode levantar como discreta restrição. O resto é cinema com altíssimo teor de acertos.
Quase 40 anos depois do misterioso desaparecimento do violento xerife Charley Wade (Kris Kristofferson), em 1957, seu esqueleto é encontrado por acaso próximo à cidade de Frontera, Texas, árido condado de Rio. O atual xerife, Sam Deeds (Chris Cooper), suspeita não somente que Wade foi assassinado, mas também que foi morto pelas mãos do xerife Buddy Deeds (Matthew McConaughey), um herói na comunidade e pai do próprio Sam. O mistério edipiano serve de pretexto para Sayles empreender longa jornada não apenas adentrando fronteiras físicas (Texas-México) mas também as pessoais e as simbólicas - aquelas linhas divisórias colocadas entre os homens a propósito de classe, raça, sexo e idade, entre mitos e fatos, pais e filhos, amantes e solitários, cidadãos e imigrantes.
Esqueça o Álamo Sendo o único Estado norte-americano que já foi um país, o Texas não tem um histórico pacífico de transição. Com um passado polêmico e sangrento, os texanos estão longe de um presente livre de complicações, hoje envolvidos num certo tipo de guerra racial e étnica. Lone Star investiga esta zona sombria onde habitam mexicanos, negros e anglo-saxões e demonstra como o autoritarismo usou a História para erguer fronteiras que separam países, comunidades e indivíduos. Sayles trabalha sempre em dois níveis: o contexto mais amplo, com uma perspectiva de conjunto da comunidade que convive debaixo de tensão; e a história pessoal de três personagens principais de origens diferentes. Há um xerife à procura de algumas respostas para um crime cometido há décadas, e de outras para tentar desvendar um mito que por coincidência é seu pai; há uma professora hispânica que busca a afirmação da dignidade da raça através do rigor dos fatos em sala de aula; e há um oficial do exército que sublima no autoritarismo as origens da escravidão.
O cinema de John Sayles se dá a alguns luxos: movimenta via de regra um elenco pouco badalado mas de valor inestimável, e trabalha sempre novas soluções para valorizar antigos procedimentos. Como a viagem no tempo via flashback , modelo de simplicidade e eficácia. Um pequena volta da câmera e pronto, o espectador se encontra 40 anos atrás.


