Reprodução do livro ‘‘Monteiro Lobato, Furacão na Botocúndia’’Era uma vez um homem caipira que amava demais a sua gente e as coisas do seu país. Tanto, tanto, que ainda hoje, cinquenta anos depois de sua morte, suas idéias continuam ‘‘viventes’’ numa das maiores obras literárias de nossa história, traduzida em todo o mundo. Seu público é a criança. Aquela criança interior que tem dentro de cada adulto e a criança que nem sabe ler para poder conquistar seus direitos de cidadania.
Legítimo porta-voz do povo brasileiro, deixou uma semente que ainda não deu muitos frutos: a sua indignação e combatividade diante das mazelas nacionais. Seus heróis, ao mesmo tempo que transportavam para a fantasia da infância, denunciavam o descaso com a educação, a doença da saúde, a corrupção dos governantes e os vendilhões dos recursos naturais e do patrimônio do País para os estrangeiros. Nem parece que foi ontem. Se não tivesse morrido de um misto de espasmo e amargura, em julho de 1948, José Bento Monteiro Lobato estaria completando hoje, 116 anos de idade.
ReproduçãoHoje, em homenagem a Lobato, comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil. ‘‘Se não fosse Monteiro Lobato, o brasileiro não saberia ler, se é que sabe...’’, diz o radialista Walter Silva, que desligou a televisão dos filhos durante a infância e espalhou pelos quatro cantos da casa as obras de Lobato para que eles pegassem gosto pela cultura nacional em vez da enlatada. Segundo o crítico Wladir Dupont, uma das maiores guerras de Lobato era contra ‘‘essa a mania de imitação do brasileiro, eterno embasbacado diante dos modelos estrangeiros’’. Escreveu sobre o que pensariam de nós os estrangeiros: cretinos.‘‘Viciamo-nos na sabujice a ponto de erigir como princípio a atitude acocorada e boquiaberta diante do atrevido dolicocéfalo melado. Esgotamo-nos em facilitar-lhes facilidades para que os invasores tenham cá um paraíso terreal, e venham derrotar-nos dentro de nossa própria casa, enriquecer-se às rápidas, apossar-se de tudo, fazendo do pobre brasileiro um pária faminto e errante a gemer de lazeira num território que cada vez é menos seu’’.
É assombrosa a revolução que Lobato fez na literatura brasileira. Mesmo com a invasão da mediocridade com que a criança é tratada na televisão não educativa. Aliás, os educadores sérios deste País compartilham do sonho de Lobato de ver um futuro melhor para os habitantes do grande Sítio do Pica-pau-amarelo. Sua obra é uma das mais analisadas em sala de aula.
Inquieto intelectual, homem de idéias e de muita ação. Formou-se em Direito pressionado pelo pai, queria ser pintor, foi uma advogado informal dos estudantes nas suas participações dos jornais acadêmicos e, um dos responsáveis pelo surgimento da indústria editorial brasileira que nos anos 20 era muito restrita. Ele criou a primeira editora genuinamente brasileira, a Monteiro Lobato & Cia..‘‘O Brasil está louco por leituras... só os editores é que não sabiam disso’’, disse o escritor animadíssimo com o sucesso de ‘‘Urupês’’ seu primeiro livro lançado em 1918.
Além de sua preocupação com a educação do povo como caminho de libertação, Lobato se angustiava e escrevia toda sua indignação com a condição miserável do brasileiro simbolizada pela nobre figura de Jeca-Tatu, debilitado por falta de tudo. Jeca-Tatu era um apelo escancarado às autoridades para que cuidassem do saneamento básico, e criou uma polêmica nacional.
Neto de barão quatrocentão paulista, o menino José Bento conheceu a vida em contato com a natureza na fazenda do avô e certamente estas experiências o inspiraram a escrever o ‘‘Sítio do Pica- Pau-Amarelo’’. Sempre rodeado de empregados e de mucamas, Lobato percebia os contrastes entre a miséria em que vive o homem do campo e o que ele vivia lendo de Carlos Magno a Julio Verne, na farta biblioteca da família. Esse contraste norteou sua obra e também sua vida. Foi adido comercial em Nova York e preso político pela ditadura Vargas porque queria que o petróleo brasileiro fosse explorado pelos brasileiros e ‘‘não fosse monopolizado pelo Governo manipulado pelos imperialistas americanos’’. Sempre que voltava ao Brasil dizia estar morrendo de saudade da língua e dos bate-papos intermináveis, das conversas para boi dormir, e outros caldos de goiaba’’.
Em toda sua obra Lobato deixou clara sua preocupação com a liberdade, com a melhoria das condições de vida do homem e da natureza, com questões sociais,e com os direitos de cidadão. Defendeu, principalmente, o direito que todos têm de sonhar e de soltar a imaginação. Três dias antes de morrer, disse que ‘‘só teria prazer de voltar a este mundo se fosse para escrever mais histórias para as crianças’’.
Deprimido por não poder ler devido às sequelas de um espasmo vascular, pela perda de um filho, e com a ação da ditadura, ele ainda escrevia cartas encorajando seus amigos por suas convicções políticas. Numa delas ele teria confessado que a indignação era ‘‘o único sentimento que o animava a escrever’’. Por essa indignação e senso crítico ativo diante do inconformismo dos menos patriotas, Monteiro Lobato chegou a ser chamado de mau brasileiro. Por colocar o dedo nas feridas, quando na época, o comum era o ufanismo apaixonado pelas belezas pátrias. Sua santa indignação também o levou a dizer ao escritor Gondin da Fonseca: ‘‘contra a mediocridade insolente ou o safadismo de alto coturno, quem não se mostra feroz é um patife’’.
E outro amigo, através de cartas, Lobato sugeria que desse mais vibração às suas próprias idéias, ‘‘pois nosso povo só reage com formicida no rabo’’.

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