A Companhia do Latão ofereceu ao público do Filo, no Teatro Núcleo I, em Londrina, uma recepção calorosa, contando histórias saborosas e bem articuladas do Brasil colonial. O início de ‘‘O Nome do Sujeito’’ se realiza na penumbra, num prenúncio da dissimulação dos acontecimentos que viriam acontecer naquele espaço. A partir de situações aparentemente risíveis, eles nos oferecem um caminho para a reflexão e indignação.
Ambientado em Pernambuco, anterior à Independência, a encenação do grupo paulista foi estruturada cada cena por si, engenhosamente entremeadas por blecautes sonoros, numa sonoplastia e preparação vocal impecáveis. Na busca de uma linguagem e identidade própria, a Companhia do Latão trouxe o teatro épico ao Filo, ressaltando a forma narrativa, oferecendo uma divertida concepção do Brasil colonial, tendo o homem brasileiro como objeto de pesquisa.
De posse da linguagem de referências brechtianas, a paisagem humana apresentada se caracteriza por uma riqueza incomum. A começar pelo ardiloso senhor Carneiro, sempre com um argumento para trapacear, numa explícita defesa da Lei de Gerson. O despojamento com que os atores levaram ‘‘O Nome do Sujeito’’ é resultado de um incrível domínio técnico, de uma pesquisa musical generosa, entrelaçada com a inominável produção ligadas à produção popular. A Companhia do Latão reinventou a história para dimensioná-la mais próxima da nossa realidade atual, se valendo da luz do humor inteligente, do rigor ético e da estética exigente.
A empatia imediata com o público faz-nos pensar sobre nossa capacidade sempre renovada de rir das nossas desgraças. Mas ‘‘O Nome do Sujeito’’ não traz apenas uma visão hilária daquilo que somos. Momentos de tensão, como o atropelamento do mendigo, nos reportam aos casos recorrentes nos noticiários de grandes nomes conhecidos da mídia, que atropelam anônimos trabalhadores e saem ilesos das garras da lei. ‘‘O Nome do Sujeito’’, fala dos articuladores e manipuladores costurando artimanhas para ludibriar a vida dos pequenos e anônimos, ou quem quer que apareça. O reconhecimento por parte do espectador desse sequestro da ingenuidade dos personagens indefesos se deu em vários momentos. A velhinha cega que compra uma imagem do menino Jesus, acreditando ser uma relíquia sem preço, pode figurar como exemplo. Ou então, Margarida, garota estuprada à beira da praia fétida. A grande sacada foi apenas contar o ocorrido, fazendo com que o espectador, a partir de seu repositório de imagens, criasse o horror à beira da praia.
Falar verdades com o escudo do humor é o caminho mais rápido para a compreensão de muitos valores. A coesão entre o elenco fez um dos pontos altos do espetáculo, cada qual com seu momento de destaque.
O Brasil barroco resgatado pelo grupo, na verdade, é apenas pano de fundo para traçar um paralelo com a atual neoliberalismo. O contrato comercial realizado pelo barão com o capital estrangeiro, encontrou ressonância nos acertos nebulosos sobre a atual abertura do capital estrangeiro no País.
Esse recurso de colocar o barão onipresente em todo a encenação, com amplos poderes sobre a vida de todos é um achado virtual, no qual vivemos e não nos damos conta. No epílogo, o regente anuncia: ‘‘nunca confie nas reformas, eles pintam a fachada, trocam o sistema elétrico, mas não se preocupam com o sujeito que só quer trabalhar’’. O que fazer? Aí, já é outra história.

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