O Brasil redescobre sua arte
São Paulo, 21 (AE) - Domingo (23) à noite, os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jorge Sampaio inauguram a Mostra do Redescobrimento, numa festa para 10 mil convidados
em São Paulo. A exposição é a maior já realizada na América Latina e custou R$ 40 milhões apenas para a montagem de sua versão paulistana.
O espectador que optar por assistir à Mostra do Redescobrimento - Brasil + 500 em ordem cronológica, corre o risco de sentir um certo estranhamento ao chegar ao século presente. Como descreve o próprio curador dos núcleos Arte Moderna e Contemporânea, Nelson Aguilar, após mergulhar no ambiente quase opressivo provocado pela cenografia que cerca a arte barroca e pelo cenário "pátrio" inventado para abrigar as obras do século passado, o público encontrará em torno da arte do século 20, um silencioso vazio, o que, dependendo do ponto de vista, pode parecer com uma espécie de angústia ou de alívio.
A verdade é que a montagem da produção moderna e contemporânea, concentrada no Pavilhão da Bienal (Cicillo Matarazzo), no Parque do Ibirapuera, é a única que está sendo apresentada sem os recursos cenográficos presentes em quase todo o restante da exposição.
Ausência de cor - Sabiamente, o curador e o arquiteto Paulo Mendes da Rocha optaram por um ambiente neutro, pela ausência de cor representada por uma tonalidade de cinza, evitando assim qualquer intervenção na mostra que não seja a criada pelas próprias obras participantes. "As criações deste século são a própria cenografia", abrevia ele. "Se quiser, o espectador também pode relacionar essa ausência com o vazio do século", avisa.
Esse núcleo da mostra que dá conta dos últimos 100 anos da história da arte brasileira, conta Nelson Aguilar, foi organizado por meio de um cruzamento de listas. Ele comenta que, durante os últimos três anos, juntou uma grande quantidade de listas nas quais gente ligada ao mundo das artes apontava os cem artistas que considerava mais importantes para este século.
De certa forma, o curador democratizou a responsabilidade na eleição dos emblemas da arte do século 20, consensos como a tela "Mestiço, de Portinari, ou a instalação "Item Lázaro", de Leonilson (as camisas mostradas originalmente na capela do Morumbi). "Dessa forma, a exposição não apresenta nenhuma surpresa", acrescenta.
Mas, apesar desse caráter emblemático, a mostra não pode ser chamada de previsível. Mesmo que Aguilar negue as surpresas, ninguém poderia prever, por exemplo, que um dos principais recortes da história da arte brasileira, a do século 20, partisse de uma série de ilustrações para um livro de ficção científica.
Datadas de 1903, as criações de Henrique Alvim Correia para o clássico "A Guerra dos Mundos", de H.G. Wells, abrem o módulo que costura de Pancetti a Marepe com uma linha eminentemente historiográfica. No lugar da conhecida divisão moderno/contemporânea, a mostra é estruturada sobre três momentos do desenvolvimento da arte do século. O primeiro deles, o curador descreve como período da centrifugação, época em que a arte nacional absorveu e digeriu influências externas, como as das chamadas vanguardas européias e, a partir daí, desenvolveu as grandes coleções de obras que falam dos temas e das cores nacionais.
Essa etapa junta trabalhos de Waldemar Cordeiro a exemplares das primeiras fases de Lygia Clark e Hélio Oiticica, este último representado pelos "Metaesquemas". "Trata-se de um momento em que se criava um cenário para o País", esclarece Aguilar.
O segundo momento reflete o que o curador considera como fase centrípeta da criação nacional, etapa que diz respeito ao momento em que se enxugou o excesso de informação presente na fase de formação da arte moderna brasileira. Nela estão incluídos, por exemplo, trabalhos como os representantes da segunda fase de Oiticica.
Rompimento - Finalmente, o terceiro momento absorve o rompimento com a tradição dos suportes, que marca o início da contemporaneidade na arte. A fase que Aguilar chama de novas mídias reúne de Franz Krajcberg a Tunga. Mas um dos grandes focos desse momento é a fotografia, que chega quase a ser um segmento à parte, reunindo cerca de 70 imagens criadas por Geraldo de Barros, Miguel Rio Branco, Rochelle Costi e Vik Muniz.
Aguilar diz que quase todos os trabalhos da exposição são conhecidos do público e que nenhuma obra foi encomendada especialmente para a exposição. "Afinal de contas, mesmo com a forte participação contemporânea, essa é uma mostra histórica e conta apenas com a participação de artistas com a trajetória bastante sedimentada."





