Agência EstadoPaulo Francis: influência dos textos revolucionários de Trotski e do estilo polêmico de Bernard ShawO jornalista e escritor Paulo Francis morreu de uma crise cardíaca ontem de manhã, em Nova Iorque, aos 66 anos. A notícia foi dada pelo escritório nova-iorquino da TV Globo, onde ele trabalhava. Francis morreu às 6h45 (9h45 de Brasília) em sua casa. Ele era casado com a jornalista Sônia Nolasco.
Nasceu a 2 setembro de 1930, em Botafogo, Rio de Janeiro. Seu nome de batismo era Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn. Era filho de uma família de classe média alta, com origens alemãs.
Paulo Francis descreveu no livro autobiográfico ‘‘O Afeto que se Encerra’’, as condições da sua formação intelectual. Ainda adolescente, já havia lido grandes escritores, que marcariam decisivamente as obras e atitudes do autor. Conheceu, muito jovem, obras de Shakespeare, Dostoiévski, Tolstói, Dickens, Dante, Machado de Assis, Bernard Shaw e outros nomes consagrados da literatura universal. Ao mesmo tempo, recebia uma formação católica no Colégio São Bento.
O pseudônimo, pelo qual ficou nacionalmente conhecido, foi criado pelo diretor teatral Paschoal Carlos Magno, na década de 50. Como ator da companhia teatral de Magno, percorreu vários estados brasileiros. No Nordeste, pela primeira vez, assistiu a cenas lacerantes de miséria. A imagem das famílias de retirantes da seca o acompanharia por toda a vida.
A carreira de ator e a fé católica foram curtas. Em pouco tempo, tomou contato com as obras de Karl Marx e tornou-se comunista. Mas aderiu ao marxismo pela escola do russo Leon Trotski. As bases de ação do trotskismo eram a luta revolucionária internacionalista e a oposição ao modelo burocratizado que o ditador Josef Stalin impôs à URSS. Crítico da esquerda tradicional - na década de 50, representada pelos partidos comunistas - Francis ganhou notoriedade como crítico de teatro no ‘‘Diário Carioca’’. As principais influências do estilo, agressivo e mordaz, eram os textos revolucionários de Leon Trotski e os artigos polêmicos e peças teatrais do irlandês Bernard Shaw (autor de ‘‘Santa Joana’’ e ‘‘Pigmaleão’’). Francis jamais deixou de reconhecer a influência recebida desses dois intelectuais.
Desenho de Jota que, nos últimos dois meses, vinha ilustrando a coluna de Paulo Francis na Folha de Londrina
Depois de amargar a derrota das esquerdas brasileiras com o golpe militar de 1964, Paulo Francis continuou a escrever artigos, sempre marcados pelo tom polêmico e a essência trotskista. Depois de muitas mudanças ideológicas, escreveria, em 1994, o livro ‘‘Trinta Anos Esta Noite’’, em que reavaliou o episódio da derrubada de João Goulart e a ascensão dos generais brasileiros ao poder.
Do final dos anos 60 à metade da década de 70, trabalhou no seminário ‘‘Pasquim’’, que combinava bom humor e oposição ferrenha à ditadura militar. Tinha como colegas de jornal vários nomes que ganharam celebridade na imprensa brasileira: Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Tarso de Castro, Jaguar, Henfil, Ziraldo, Sérgio Augusto, entre outros.
O problema é que os companheiros de jornal às vezes viravam companheiros de cela. Por conta da repressão militar ao ‘‘Pasquim’’, Francis foi preso quatro vezes. Chegou até a passar uma ceia de Natal com seus colegas na prisão. Em 1971, recebeu uma bolsa da Fundação Ford e passou a morar em Nova York. Continuou a enviar seus artigos para o Brasil.
ElitesJá nos Estados Unidos, concluiu dois romances (‘‘Cabeça de Negro’’ e ‘‘Cabeça de Papel’’) e um livro de novelas (‘‘Filhas do Segundo Sexo’’). Nos livros, analisava o comportamento das elites financeiras e intelectuais do país no período pós-1964. Publicou várias coletâneas de ensaios políticos e culturais.
Em 1975, começou a escrever para a ‘‘Folha de São Paulo’’, a convite do então secretário de Redação, seu amigo Claudio Abramo. No final da década de 70, foi abandonando as convicções trotskistas. Aproximou-se do liberalismo e, por fim, adotou posições políticas nitidamente neoconservadoras. Essa transformação ideológica lhe rendeu muitas críticas. No fim da vida, insistia no tiroteio com políticos e intelectuais de esquerda. Dizia entender mais de Karl Marx do que a esquerda brasileira. Deplorava modismos e atitudes pseudo-intelectuais.
Entre o público mais instruído, confirmou sua condição de leitura obrigatória - amada ou odiada - e envolveu-se em diversas polêmicas. Ganhou desafetos e destilou tinta venenosa. Alguns bate-bocas famosos aconteceram na ‘‘Folha de São Paulo’’: com Caetano Veloso, José Guilherme Merquior, Rogério César Cerqueira Leite e, finalmente, com o próprio ombudsman do jornal, o ex-amigo Caio Túlio Costa.
Para quase todos os brasileiros era facilmente reconhecível na tela da TV Globo. À noite, mostrava via satélite a fala oblíqua e o sorriso sarcástico no ‘‘Jornal da Globo’’. Humoristas adoravam imitá-lo.
Passou a escrever para o jornal‘‘O Estado de São Paulo’’ em 1990. Em junho de 1992, começou também a assinar sua coluna no jornal ‘‘O Globo’’. Paralelamente, no programa ‘‘Millenium’’ da Globonews, e no Manhattan Connection’’, da GNT. A Folha de Londrina publicava seus textos às quintas-feiras e domingos.
Os colegas de TV Globo informaram que Paulo Francis será enterrado no Brasil.

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