O Brasil nas barricadas
O romance de Yevtushenko tem uma coleção impressionante de personagens, a começar por ele mesmo, autor e participante da luta nas barricadas da Casa Branca. Vale lembrar que, além de poeta, ele também foi político, fazendo parte de 1998 a 1991 do Parlamento soviético, tendo sido também uma das primeiras vozes a se levantar contra o stalinismo.
Juntos, participando da trama, estão o policial Stepan Palchikov; o veterano jogador de futebol Proktor Zalyzin, que todos os aficionados haviam conhecido como Lyza; sua eterna paixão, uma alpinista que tem o apelido de ‘‘Barquinho’’; Van Gogh, um antigo combatente no Afeganistão (que perdeu a orelha esquerda durante o tempo em que foi prisioneiro de guerra, daí seu apelido) além de outros que o autor não nomeia, chamando apenas por certos títulos, como o marechal, o general amedrontado, o ministro georgiano, o violoncelo humano, gente que se mistura, de ambos os lados da barricada, formando um mosaico inesquecível.
De todos, a figura do ex-jogador Lyza se torna mais próxima, talvez pelo futebol. No quarto que ocupa, já aos 60 anos, junto a uma série de fotos, está uma em que aparece Pelé, o jogador da seleção do Brasil, entregando a Lyza sua Camisa 10. E a camisa é a única grande recordação do antigo jogador, guardada em um relicário, ainda com o suor do Rei do Futebol.
No dia em que o golpe explode, quando a namorada de uma vida, o ‘Barquinho’, o resgata para levá-lo às barricadas, Lyza toma a camiseta 10, do Brasil, aquela que Pelé lhe deu, e a veste. É Pelé, é o Brasil no que tem de mais puro, o amor ao futebol, a grandeza de um povo humilde, quem revive e participa das barricadas pela democracia. No meio do povo, aquela camisa amarela se destaca, tributo de um velho jogador ao seu ídolo e a seu povo.
E é de ‘Barquinho’ a lembrança que resume não só o livro mas toda a luta da humanidade, quando conta a Lyza que, um dia, num livro sobre a Revolução francesa, leu a seguinte frase: ‘‘Revoluções são idealizadas por utópicos, realizadas por fanáticos e aproveitadas pelos patifes’’. Aí, sem dúvida, uma síntese que resume não só as barricadas da Casa Branca de Moscou mas a própria História da civilização humana. (E.F.)

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