Fernanda Abreu, que vai participar, ainda este mês, da noite de funk do festival de Montreux (Suíça), deixou um pouco de lado o seu discurso de amor pelo Rio para descobrir a musicalidade brasileira em seu novo CD, ‘‘Raio X - Fernanda Abreu - Revista e Ampliada’’ (EMI). O disco já se encontra nas grande lojas. ‘‘Fiz cerca de 220 shows pelo País com o Da Lata (álbum anterior)’’- conta a cantora carioca. ‘‘Saí com o Rio na bagagem e voltei com o Brasil’’- conclui.
Para chegar ao álbum mais eclético de sua carreira, ela tirou proveito principalmente de suas amizades. Foi até ao Candeal, almoçar na casa de dona Madalena, mãe de Carlinhos Brown; dividiu o palco com Chico Science (músico pernambucano, morto no começo do ano) em Nova York; subiu o morro da Mangueira para encontrar o parceiro Ivo Meirelles; trocou idéias com os garotos do Planet Hemp e O Rappa; e viajou até São Paulo para conferir as maluquices de André Abujamra. ‘‘Não é um disco de convidados e sim de parcerias’’- afirma Fernanda.
A idéia da gravadora era transformar esse quarto álbum da cantora em um lançamento ao vivo. O material já estava pronto - três shows gravados o ano passado no Palace, em São Paulo, com o repertório do ‘‘Da Lata’’. Mas Fernanda, que confessa não gostar de ouvir CD ao vivo, decidiu virar a mesa e apostar em um novo projeto - manter o repertório, mas dar novos arranjos, remixar antigos sucessos e encher o disco de participações especiais. ‘‘Deu um trabalho danado, mas acabou valendo a pena’’- diz.
Ecletismo - Quando se ouve as quatro primeiras músicas que abrem o CD - ‘‘Raio X’’, ‘‘Aquarela Brasileira’’, ‘‘Jack Soul Brasileiro’’ e ‘‘Um Amor, Um Lugar’’ - percebe-se que a cantora se decidiu mesmo pelo ecletismo. A primeira é um rap-funk, parceria de Fernanda com Chacal e Chico Neves. Já ‘‘Aquarela Brasileira’’, um samba-enredo que ela diz ter se inspirado em ‘‘Brasil É o País do Suingue’’ para compor, teve percussão de Marcos Suzano, que tocou de tudo na faixa: ganzá, prato e faca, garrafa, tamborim, pandeiro, reco-reco, reco de mola, zabumba e caixa de fósforo.
‘‘Jack Soul Brasileiro’’, de autoria de Lenine, ganhou duas músicas incidentais: ‘‘Cantiga do Sapo’’ (Buco de Pandeiro/Jackson do Pandeiro) e ‘‘Chiclete com Banana’’ (Gordurinha/Almira Castilho). É um rap/repente que Fernanda decidiu gravar depois que ouviu o pernambuncano Otto (ex-percussionista do Mundo Livre e atualmente em carreira-solo) cantar ‘‘Cantiga do Sapo’’ em cima de uma base de hip-hop.
A quarta faixa, ‘‘Um Amor, Um Lugar’’ é uma típica balada de Herbert Vianna. Composta pelo vocalista dos Paralamas do Sucesso, ela dá a impressão de já ter sido ouvida em algum outro disco do grupo.
Colagem com Elis - Fernanda incluiu no repertório antigos e atuais sucessos, como ‘‘A Noite’’ (primeiro hit da cantora), ‘‘Rio 40 Graus’’, ‘‘Garota Sangue Bom’’, ‘‘Jorge de Capadócia’’ e ‘‘Veneno da Lata’’. O vocalista e líder do Karnak, André Abujamra, foi escolhido para fazer o novo arranjo para ‘‘A Noite’’. ‘‘O Abujamra sempre me disse que adorava essa música’’, conta a cantora. ‘‘Também achei legal um artista paulista participar da faixa, pois foi em São Paulo que estourei pela primeira vez com a canção’’.
‘‘Rio 40 Graus’’, a música que virou hino da nova geração carioca, teve um convidado nordestino para dividir os vocais com Fernanda: Chico Science. O músico pernambucano não decepcionou - transformou a já boa canção em uma ótima versão no melhor estilo mangue-beat. Lucio Maia, talentoso guitarrista do Nação Zumbi, também teve participação marcante na faixa.
‘‘Garota Sangue Bom’’ e ‘‘Veneno da Lata’’ não ganharam arranjos muito diferentes dos originais. Talvez a gravadora não quisesse mudar músicas que deram tão certo no mercado. Boa mesmo ficou a versão para ‘‘Jorge de Capadócia’’, clássico de Jorge Ben Jor. E Carlinhos Brown contribuiu e muito para isso. Dividiu com Fernanda o arranjo e tocou percussão e violão na faixa.
A melhor canção do disco é a inédita ‘‘Bloco Rap Rio’’, uma colagem de várias músicas feita pela própria cantora. Abre com um sampler com Elis Regina cantando ‘‘O Morro Não Tem Vez’’, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, e segue com o ‘‘Rap da Felicidade’’ (aquela que diz: ‘‘Eu só quero é ser Feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci...’’). ‘‘Achei que essas duas canções, apesar dos estilos diferentes, têm muito em comum’’, explica.
A faixa ainda conta com várias músicas incidentais e participações especiais dos grupos O Rappa e Planet Hemp e do cantor Fausto Fawcett.

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