Resgatar a multiplicidade da história e da formação de uma nação, apontando aspectos, triviais ou não, do ontem e do hoje, contextualizados através da visão do artista. Esta é a proposta da exposição ‘‘Brasil 500 anos - Faces e Facetas’’ que o Ateliê Semana de 22 abre hoje, às 21h30, na Sala José Antônio Teodoro, da Secretaria Municipal de Cultura, em Londrina.
A mostra reúne cerca de 50 obras dos 17 artistas plásticos paranaenses que integram o Ateliê Semana de 22, coordenado pela artista plástica Yoshiya Nakagawara Ferreira. Alice Hayama, Andréa Monteiro, Antonio Roberto Ruffino, Cintia Ogassawara, Eliane Macuco, Eliza Greca, Ester Viana Perfetto, Hélio Hirao, Keiko Koga, Lélia Ferreira, Maria do Carmo Malacrida, Marta Inoue Zaha, Neide Cornélio, Rejane Bastos, Shivananda Ackermann, Teba Yllana Godoy e Yoshiya estão expondo, cada um, três trabalhos, nas mais variadas técnicas, sobre o tema comum. Cada trabalho seria uma faceta da história do Brasil - na sua permanente evolução - em contraposição à sua face oficial. ‘‘Com esta exposição queremos mostrar o lado contudente da realidade brasileira’’ - afirma Yoshiya.
ReproduçãoTécnica
mista
sobre
tela de
Teba
Yllana
GodoyA idéia da exposição, segundo Yoshiya, não é nova nem tem a ver com a campanha desencadeada pela mídia, em comemoração aos 500 anos do Brasil. ‘‘Ela surgiu através das nossas conversas no ateliê, muito antes da última exposição coletiva que fizemos, em dezembro do ano passado. E faz parte de um projeto que inclui uma segunda exposição - com o mesmo tema - e de um livro que pretendemos lançar junto com ela, no próximo ano’’ - diz.
Para Yoshiya, este trabalho vem justamente em contraposição ao lançado pela mídia. ‘‘A mídia vai fazer a festa, nós queremos fazer a crítica’’ - explica. Além disto, segundo ela, a proposta é uma sequência de um trabalho que já vem sendo desenvolvido há vários anos. ‘‘Em 92, eu fiz uma exposição intitulada América Latina: Memória e Identidade. E, no ateliê, estamos sempre discutindo questões sobre a arte como linha mestra na condução da vida. A arte pode ter beleza plástica, mas sem consistência, sem conteúdo, fica só nisto’’ - garante.
A exposição reúne as mais variadas tendências da arte contemporânea. Ali estão desde pintura sobre tela a instalações - às vezes do mesmo autor - passando por objetos e esculturas. Cada artista buscou, em si, sua visão do Brasil, aliando suas próprias referências - através de experiências vividas, refletidas ou conduzidas - com a busca da materialidade. O resultado é uma ampla visão plástica sobre alguns dos mais prementes e agudos problemas sociais do País, do passado, presente e futuro.
ReproduçãoEscultura em resina de Yoshiya Nakagawara FerreiraA questão do índio, da destruição da natureza e do binômio esmagar/construir está nas leituras feitas pelas artistas Marta Zaha, Teba Godoy, Eliza Greca, e Keiko Koga. Cada uma, à sua maneira e linguagem, lança um grito silencioso e pictórico, sobre questões que envolvem a falta de conscientização de um povo para com seu passado e futuro. Shivananda, um suíço radicado há pouco tempo no Brasil, mostra as incompreensões de um estrangeiro perante a mecanicidade de expressões que não condizem com realidades gritantes de uma nação. O desrespeito para com o cidadão está retratado nas telas de Eliane, que aponta a massacrante indignidade das filas - até para garantir o direito básico à saúde - numa crítica consciente à falência de sistemas estabelecidos.
As obras podem se situar em passado distante, nos primórdios da história brasileira, como as de Lélia Ferreira que, através da sensações táteis do polipropileno, evoca a atemporalidade da ‘‘descoberta’’, em uma colagem com várias leituras. Ou até mais antigo que a chegada das Caravelas de Cabral numa terra que viria a ser conhecida como Brasil, como os trabalhos de Andréia Monteiro, que busca uma realidade que não a atual, através de fósseis brasileiros: plantas, peixes e dinossauros.
ReproduçãoObjeto em resina de Alice Hayama‘‘A mídia vai fazer a festa, nós queremos
fazer a crítica’’O passado pode até não ser muito distante, como nas obras de Neide Cornélio, que revisita um dos períodos mais sufocantes da história e respira os ares da ditadura para denunciar, em uma metáfora veiculada através de sua instalação de botões, sobre as perdas - às vezes, fatais - da cidadania e dos direitos humanos.
Passado e presente também se enlaçam nos trabalhos de Maria do Carmo Malacrida - que costura, através de moedas, o desenvolvimento econômico confuso e que pouco valoriza a mão-de-obra. E assim vão Yoshiya, Alice Hayama, Cintia Ogassawara, Ester Perfeito, Rejane Bastos e Hélio Hirao, fazendo paralelos, criando pontes de ligação entre passado e futuro, mexendo em repressões diárias, convivendo com simultaneidades, expressando-se numa materialidade inquietante numa das exposições mais criativas e - por que não dizer? - belas dos últimos tempos.
• Brasil 500 - Faces e Facetas - Coletiva do Ateliê Semana de 22. De hoje a 19 de agosto, na Sala José Antonio Teodoro (Praça Primeiro de Maio, 110), em Londrina.

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