O jornalista Edney Silvestre sempre viveu perigosamente. Desde que se tornou correspondente da Globo em Nova York, ele já perseguiu furacões em Honduras, conheceu de perto um vulcão no Equador e cobriu os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos. A aventura mais perigosa, porém, aconteceu no Rio de Janeiro. Depois de 11 anos radicado nos Estados Unidos, foi convocado para retornar ao Brasil. No dia do desembarque, Edney Silvestre conseguiu ser assaltado três vezes. ''Naquele dia, fiquei seriamente preocupado porque já não tinha mais um tostão no bolso. Podia ser morto porque não tinha R$ 10'', atemoriza-se.
O pior, porém, já passou. Fora a saudade dos amigos nova-iorquinos, Edney se readaptou ao país que deixou para trás em julho de 91. Onze anos depois, ele acredita que o povo brasileiro tornou-se mais consciente de seus direitos e deveres. Por isso mesmo, fez uma série de reportagens para o ''Jornal Nacional'' sobre o poder do cidadão no processo eleitoral. Dos casos que pesquisou, destaca a ação de cinco amigos de Ribeirão Bonito, no interior de São Paulo, que conseguiram as provas necessárias para derrubar um prefeito corrupto. ''A conscientização do povo brasileiro aumentou. Hoje em dia, as pessoas já não esperam que o Estado resolva tudo sozinho'', acredita.
Como você recebeu a notícia de que ia voltar ao Brasil depois de 11 anos como correspondente internacional?
A notícia foi totalmente inesperada. Não achei que a Globo se interessava em me ter aqui. Fiquei surpreso. Afinal, a minha vida está toda lá. Minha casa, meus amigos... Pedi um tempo para pensar. Por outro lado, o Brasil atravessa um momento muito interessante. Isso sem falar que a oferta era tentadora. Por que não? No dia 4 de março de 2002, já estava de volta.
O seu primeiro dia não foi dos melhores. O que aconteceu?
Fui assaltado no meio de um engarrafamento na Avenida Francisco Bicalho. A primeira vez por um jovem que não podia ter mais do que 13 anos e a segunda, por um adulto armado. Mais adiante, um terceiro assaltante deu um murro no vidro do carro, gritou uns tantos palavrões e exigiu dinheiro. Aquilo nunca tinha me acontecido antes. Quem estava ao lado fingiu que não via nada. E deve ter dado graças a Deus porque o escolhido foi outro. Foi aí que pensei: ''Meu Deus, posso ser morto porque não tenho R$ 10? Será que eles aceitam cheque?''. Dias depois, tive dengue. Fiquei três semanas de cama, prostrado.
Com exceção da violência e da dengue, o que mais chamou a sua atenção nessa volta ao Brasil?
O que mais me espantou foi o aumento no nível de conscientização do brasileiro. Parece clichê, mas é verdade. No interior de Rondônia, entrevistei um contador que já conseguiu que vereadores devolvessem salários indevidos aos cofres públicos. E sabe como? Ele impetra ações populares. E sabe por quê? Porque ele descobriu que pode fazer isso simplesmente porque tem título de eleitor. Esse é o Brasil novo. O Brasil que eu estou começando a redescobrir...
Quais foram as reportagens mais marcantes nesses 11 anos?
O ano de 99 foi o mais emocionante de todos. E o mais perigoso também. Naquele ano, persegui um furacão em Honduras, fui ao Iraque tentar uma entrevista com o Saddam Hussein e, por fim, cobri a erupção de um vulcão no Equador. Na época, o jornalista Ricardo Boechat até brincou comigo, dizendo: ''Cuidado, Edney! Tem alguém de olho aí no seu lugar em Nova York!''.
Qual é a lembrança mais forte que você guarda do dia 11 de setembro de 2001?
Naquele dia, voltei para casa por volta das 22 horas. O silêncio era algo assustador. Na frente do hospital que atende à Zona Sul de Nova York, dezenas de ambulâncias à espera dos sobreviventes... Só que não havia sobreviventes. Foi aí que o pessoal começou a se tocar do que tinha acontecido. Uma carnificina inimaginável! O cheiro de gás e de fumaça também era insuportável. Tenho uma sinusite até hoje para me lembrar daquele 11 de setembro...

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