O ego tupiniquim andava mesmo precisando. E esta consolação vem agora pelo viés artístico, já que os ventos não andam lá muito favoráveis em outros nichos de brasilidade. A organização da 69ª edição do Festival de Cannes anunciou ontem a relação de filmes que concorrem à Palma de Ouro de 2016 em maio (dias 11 a 22).

E entre eles a presença latino-americana é somente brasileira (e não argentina, como ocorreu nos últimos anos), mais precisamente com o longa-metragem "Aquarius" do diretor recifense Kleber Mendonça Filho, em estreia mundial. Sua atriz principal, Sonia Braga, estará no tapete vermelho três décadas depois de subir as lendárias escadarias do Palais, quando "Eu Te Amo", de Arnaldo Jabor, esteve na competição oficial.


"Aquarius" é a história de Clara (Sonia Braga), mulher que mora de frente pro mar no edifício Aquarius, ultimo prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos maiores e dona de aconchegante apartamento cheio de discos e livros, ela vai enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.


Kleber não vai ter vida fácil em Cannes. Pela frente, filmes de Almodóvar, o drama "Julieta"; o novo de Sean Penn, "The Last Face"; os irmãos belgas Dardenne com "La Fille Inconnue", e o inglês Ken Loach com "I, Daniel Blake", entre outros pesos pesados, todos avaliados por um júri presidido por George "Mad Max" Miller.


A França, dona da casa, garantiu espaço generoso com quatro títulos. São vinte, os concorrentes à Palma, mas como sempre a lista nunca é definitiva, podendo contar com mais um ou outro à ultima hora. Outra produção brasileira, de curta-metragem, também estará concorrendo à Palma de Ouro da categoria: "A Moça que Dançou com o Diabo", de João Paulo Miranda Maria.


Entre as atrações colaterais, um Woody Allen recordista: sua nova comédia, "Café Society", foi convidado para abrir oficialmente a mostra no dia 11 de maio. É a terceira vez que Allen inaugura o evento, sempre hors concours. As outras foram com "Hollywood Ending" e "Midnight in Paris", 2002 e 2011, respectivamente.


As presenças em sessões especiais de Steven Spielberg, com a fábula "O Bom Gigante Amigo", e Jodie Foster, com "Money Monster, reforçam a ideia da proximidade quase visceral entre Cannes e Hollywood, que também comparece com alguns títulos em competição.


Como de hábito, o tapete na Croisette vai fazer o tapete do Oscar corar de humilhação, já que são 12 dias e noites de feérica badalação trajada a rigor e decorada com resplandescente coleção de joias.

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