Cultura

''A cultura é a alma de uma nação. Temos que fazer um mea-culpa. Agora mesmo estava tomando café ao som de uma música americana de péssima qualidade. Mas, nos últimos dez anos, tenho notado que a juventude está começando a valorizar a cultura brasileira''.

Movimento Armorial

''O movimento armorial tinha dois objetivos: encontrar a arte brasileira erudita baseado nas raízes populares da cultura nacional e lutar contra o processo de vulgarização e descaracterização da cultura brasileira, que continua em curso e mostra porque o movimento continua atual e necessário''.
- - -

''O movimento armorial está vivo, em plena atuação, o que não é comum. Ele foi lançado em 1970 e já está na terceira geração. A Semana de 22 durou apenas uma semana. Dos fundadores do movimento, sobrou eu e o gravurista Gilvan Samico, que fundamentamos nossos trabalhos nos folhtetos de cordel. Somos os mais velhos. A segunda geração veio com artistas como Antonio Madureira (o maior compositor do movimento), Antônio Nóbrega, Jarbas Maciel e Clóvis Pereira. E agora temos a terceira geração, na qual vejo nomes como o poeta, romancista e ensaísta Carlos Nilton Júnior, o artista plástico Alexandre Nóbrega, o grupo Gesta, o músico Leandro Carvalho (que introduziu a viola de coxo na orquestra de câmara de Cuiabá/MT) e outros jovens artistas''.

Teatro popular

''Se vocês assistirem aos filmes 'Os Sete Samurais' e 'A Fortaleza Escondida', do diretor japonês Akira Kurozawa, vão ver que ele baseou seu cinema nas formas do teatro popular nacional, o Nô e o Kabuki. É o que temos que fazer no Brasil onde temos nosso teatro popular, o cavalo-marinho, o santo guerreiro, o fandango. O fandango que conheci no Paraná, aliás, é diferente do fandango do Nordeste. Lá, é um espetáculo marítimo. O que vi em Campo Largo lembra mais o cavalo marinho e a dança parece o samba do velho e o samba de coco''.

Costumes

''Houve um congresso de crítica literária na Paraíba e o governador da época convidou os participantes para um almoço no Palácio. Quando cheguei lá, fui entrando e fui barrado por um guarda que disse que eu não poderia entrar por estar sem gravata. Respondi que aquela era a segunda vez que eu entrava no Palácio. Na primeira vez, estava nu e ninguém reclamou. Eu nasci ali.''

Etnias

''Lá fora, judeus e árabes são inimigos. No Brasil, são unidos. Os escritores Raduan Nassar e Milton Hatoun são descendentes de árabes, mas livros fundamentais de suas autorias - como 'Lavoura Arcaica' e 'Dois Irmãos' - revelam influências do Velho Testamento, que é um livro judeu'. Há três dias, dei uma aula em Brasília e vi um show do Grupo Gesta, que toca música armorial e tem entre seus integrantes descendentes de árabe e judeus. O Brasil não é um mar de rosas, mas acredito que estamos esboçando uma lição de fraternidade para o mundo''.

Fusão de linguagens

''Pela primeira vez, estou tentando fundir teatro, romance e poesia numa mesma obra. As pessoas não conhecem muito minha poesia, que é fonte profunda de tudo o que escrevo. Será um romance longo e não sei se vou conseguir terminar porque o pessoal tem me atrapalhado muito me convidando para participar de eventos (risos). E também porque já estava no final do livro, e decidi mudar tudo depois que assisti à montagem de Antunes Filho baseada em minha obra e por causa da adaptação que o Luiz Fernando Carvalho está fazendo para a televisão - e possivelmente depois para o cinema - de 'A Pedra do Reino'. Desde 1981, trabalho nesse livro. Ainda não dei título porque só batizo o menino depois que ele nasce''.

Literatura

''Considero 'A Pedra do Reino' o livro em que expressei de forma mais completa o meu universo interior. Mas não aconselho ninguém a lê-lo. É um livro grosso de 720 páginas. Mas tem um capítulo onde falo do sonho da unidade da América Latina, do sonho de uma grande nação que se estenderia do México até a Patagônia, e que vejo esboçar agora com Lula, Nestor Kichner e Hugo Chávez''.

Personagens

''Um amigo me disse que 'Auto da Compadecida' se mostrava cada vez mais atual porque agora o personagem João Grilo estava usando gravata e roubando. Discordei dele, porque faço distinção entre a picardia e a astúcia do povo dos atos vergonhosos de políticos canalhas. João Grilo é um herói e não um anti-herói, como muita gente analisou. Ele vence a burguesia urbana, o clero corrupto, a oligarquia rural e até o diabo''.

Corrupção

''Vejo as pessoas amarguradas com os casos de corrupção. Mas por eu ser mais velho, estou menos perplexo com o que houve porque não é a primeira vez que vejo acontecer isso no Brasil. Getúlio Vargas era um homem honrado e foi deposto pelo que tinha de bom e não por causa do autoritarismo. Foi deposto porque tinha um projeto de desenvolvimento nacional e os Estados Unidos não o perdoaram por isso. Quando ele descobriu que estava cercado de corruptos, deu um tiro no peito. Mas não esperem isso de Lula. Ele tem a paixão e a sabedoria do povo. Não vai dar um tiro no peito. Machado de Assis dizia que existe um País real e um País oficial no Brasil. O País real, segundo ele, era bom porque revelava os instintos do povo enquanto que o País oficial era caricatual e grotesco. Pela primeira vez em 500 anos, o Brasil elegeu um homem saído do País real. Lula tem a paciência e o dom do riso do povo brasileiro. É um misto de Quixote e Sancho Pança. Eu o conheço pessoalmente. Ele já tomou café em casa, eu já almocei com ele em Brasília. É um raio de inteligência''.

Auto-retrato

''Sou um realista esperançoso. Não sou ingênuo como os otimistas nem amargo como os pessimistas''.

mockup