O Brasil das falcatruas
Ainda no século passado, o autor e ator Juca de Oliveira escreveu e interpretou uma montagem teatral que obteve enorme sucesso de publico. ''Caixa Dois'', uma espécie de radiografia bem-humorada do Brasil fraudulento, ficou seis anos em cartaz em São Paulo e foi vista por mais de um milhão de espectadores. O texto interessou ao diretor Bruno Barreto, que retomou sua carreira no Brasil depois de quase duas décadas morando e filmando nos Estados Unidos. A versão cinematográfica que chega hoje ao mercado nacional (veja a programação de cinema na página 2) é o 17º filme de Bruno, e mesmo não se inscrevendo entre os melhores momentos do cineasta - ele admite ser um momento de entressafra - é trabalho com mais qualidades do que desacertos.
Depois de um quarto de século dedicado ao trabalho, o bancário Roberto (Daniel Dantas) perde o emprego por causa da informatização do setor. Ele tem a chance de ficar frente a frente com o homem responsável pela demissão, o banqueiro Luiz Fernando (Fúlvio Stefanini), quando descobre que o ex-patrão cometeu uma falcatrua que saiu errado.
Tudo começa quando R$ 50 milhões de ''caixa dois'' - toda e qualquer movimentação financeira não contabilizada e portanto não declarada e portanto ilegal - foram depositados por engano na conta de Lina (Zezé Polessa), mulher de Roberto. Na verdade, quem ajudaria no golpe e deveria ter recebido a quantia era Ângela (Giovana Antonelli), secretária e objeto de desejo do banqueiro. A operação ainda envolve Romeiro (Cássio Gabus Mendes), o frustrado assistente do poderoso de Luiz Fernando. Agora é preciso arranjar uma maneira de desfazer a confusão, que envolve valores como honestidade, moral, ética e, claro, muitas idas e vindas.
Em primeiro lugar uma típica comédia de erros, e em segundo plano um conto moral envolvendo noções de ganância e ética, ''Caixa Dois'' não pretende ir fundo no atoleiro das mazelas nacionais, e se assim fosse a chave seria o drama e não a sátira com contornos de caricatura. Bruno sabe que interessam mais aqui o texto e os personagens, e por isso não procura inventar. Apenas atenua o recorte teatral e imprime uma dinâmica mais condizente com o cinema, mesmo que quase cem por cento das sequências se passe entre quatro paredes.
No elenco, como o banqueiro safado e cheio de subterfúgios, Fulvio Stefanini inverte aqui as situações - ele era o sofrido bancário na montagem teatral. O bancário, que no palco era vivido por Juca de Oliveira, agora é interpretado por Daniel Dantas com muita competência. O elenco, aliás, dá conta do recado sem qualquer problema, e brilham Zezé Polessa, Cássio Gabus Mendes, Giovanna Antonelli e Thiago Fragoso. (C.E.L.J.)





