VISUAIS O Brasil através do olhar do estrangeiro Telas, fotografias e desenhos do Brasil feitos por estrangeiros, ao longo de quatro séculos, vão ser reunidos em mostra prevista para abril Reprodução‘‘Negra tatuada vendendo caju’’: aquarela de Jean-Batiste Debret, obras do pintor francês estarão num dos eixos principais da mostraReprodução‘‘Frutas tropicais’’: uma exuberante natureza morta do holandês Albert Eckhout Maria Hirszman Agência Estado A exposição ‘‘Olhar Distante’’ promete ser uma das atrações mais populares do megaevento Bienal dos 500 Anos, a ser inaugurado em 24 de abril. O conjunto de cerca de 250 pinturas, gravuras, desenhos e fotografias sobre o Brasil, feitos durante quase quatro séculos por artistas estrangeiros, não apenas oferece algumas das obras mais valiosas das últimas edições da Bienal, como mexe com a incontrolável curiosidade de saber como o outro vê o País. Como lembra o filósofo e diretor cultural do Louvre, Jean Galard, que assina a curadoria da mostra com o livreiro Pedro Correa do Lago, os brasileiros parecem precisar do olhar do estrangeiro como de um espelho, capaz de lhes devolver uma imagem que os ajuda a definir sua múltipla identidade. Para dar conta da árdua missão de realizar um panorama consistente e inovador dos olhares estrangeiros sobre o Brasil, os curadores optaram por adotar como principal critério a qualidade estética das obras. A idéia foi deixar um pouco de lado o rigor historiográfico, como o que norteou a bem-sucedida mostra ‘‘O Brasil dos Viajantes’’ (apresentada em 1994 no Masp e que serviu de inspiração a Olhar Distante). Contando com empréstimos de importantes coleções internacionais, que exigem um controle rigoroso da temperatura e da umidade ambiente, a exposição terá o privilégio de ocupar o espaço museológico do Pavilhão da Bienal. Emblematicamente, a obra inaugural da mostra é ‘‘Vista de Itamaracᒒ, a primeira tela pintada em solo brasileiro pelo holandês Franz Post, executada em 1637. Foi nesse ano que o pintor desembarcou por aqui acompanhando Maurício de Nassau. Ao todo, a mostra terá cerca de 20 telas do artista flamengo. Encerrando o núcleo expositivo estão as obras da série ‘‘Lilith’’, realizadas por um dos mais renomados artistas contemporâneos, o alemão Anselm Kiefer, que se inspirou na cidade de São Paulo para a criação das pinturas. No total, a exposição terá sete núcleos. Na entrada estarão as obras de Post e Eckhout (representado por suas exuberantes naturezas mortas). A vinda dos holandeses permitiu que o Brasil tivesse seus habitantes e sua natureza retratados, num período em que isso ainda era bastante incomum. ‘‘Ninguém tinha essa cultura na época’’, explica Correa do Lago. ‘‘Nós tivemos sorte porque Nassau era um homem esclarecido; os Estados Unidos tiveram de esperar até o século 19 para ter sua paisagem pintada’’, lembra. Mesmo assim, no caso do Brasil, há também um enorme lapso de tempo durante o qual não há registro iconográfico. Depois da expulsão dos holandeses e até a chegada da corte portuguesa, o País ficou praticamente fechado aos estrangeiros. O século 19, no entanto, é pródigo em testemunhos visuais. Quatro blocos da mostra são dedicados aos 800: a década de 20 é representada por Nicolas Antoine Taunay, a de 40 por Eduard Hildebrandt e a de 60 por Joseph Leon Righini (o primeiro a retratar a paisagem amazônica). Enquanto Taunay é considerado um dos maiores pintores europeus a virem ao Brasil (ele chegou aqui com 61 anos, já famoso na França), os outros dois são menos conhecidos, segundo os curadores, trarão gratas surpresas ao público. Esses artistas são como eixos centrais, em torno dos quais se articulam trabalhos de outros grandes mestres do período, como Rugendas ou Debret. ‘‘Preferimos tentar mostrar melhor a obra dos artistas centrais do que distrair o público com dezenas de nomes’’, explica Correa do Lago. A fotografia do século 19 também terá um amplo espaço, sendo representada por 10 a 12 fotógrafos. O século 20 será contemplado com dois núcleos, um reunindo os registros fotográficos e outro, as obras de Kieffer e de artistas contemporâneos que se dedicaram a olhar o Brasil. O levantamento e seleção inicial das obras foi feito por Correa do Lago, mas recebeu o aval integral de seu parceiro na empreitada, Jean Galard, que passou a integrar a equipe há pouco menos de um ano. Coube ao filósofo, que esteve este mês em São Paulo, dar os retoques finais na edição do catálogo - a difícil tarefa de elaborar um discurso acerca da questão do olhar distante, enfocando os aspectos antropológicos e filosóficos e abordando os diferentes aspectos conceituais da mostra. Tendo vivido no País entre 1968 e 1971, quando lecionou filosofia na Universidade de São Paulo, Galard é a pessoa certa para a empreitada já que, como os pintores viajantes, possui uma relação ao mesmo tempo próxima e distante do País. O filósofo optou por abordar a questão de maneira bastante livre e pessoal, articulando suas idéias em torno de diferentes eixos. A questão da relação entre objetividade e subjetividade acabou se tornando um ponto central em seu trabalho. Em primeiro lugar, ele parte da idéia de que os testemunhos visuais são mais fiéis à realidade do que os relatos escritos, carregados de idéias pré-concebidas que chegaram até nós. Segundo ele, é interessante notar o esforço de objetividade dos pintores, enquanto os escritores parecem revelar mais deles mesmos do que o que viram. Paraíso perdido, país do futuro ou terra de ninguém, povoada por seres capazes de comer os próprios semelhantes? Essas e muitas outras definições foram aplicadas ao Brasil desde o descobrimento. E todas elas contêm uma interessante carga subjetiva, que se torna mais evidente nos textos do que nas imagens. ‘‘Acho que há mais de besteira no que lemos do que no que mostramos visualmente’’, resume Galard. No entanto, foi a partir dos textos, e não das imagens, que foram feitas as primeiras impressões acerca do País. Talvez por meio das belas imagens dessa exposição, espera o filósofo, o brasileiro consiga descobrir melhor o seu passado. Mas seu interesse não é o de contribuir para essa mania nacional de tentar definir o País e seus habitantes. ‘‘Essa preocupação sempre me desconcertou, porque a identidade é algo a construir, não é algo feito; é como se olhássemos para nós como completos quando estamos em processo de transformação, de recriação’’, afirma Galard. ‘‘Essa ocasião formidável dos 500 anos, com essa exposição gigantesca que está sendo preparada, deve ser aproveitada para abrir o espírito, provocar novas curiosidades, mostrar coisas que são mal conhecidas, como a arqueologia, que os estrangeiros acham que não existe’’, acredita o filósofo. Ele não resiste a questionar sobre quem é realmente o estrangeiro contemplado pela mostra. Estrangeiro seria apenas aquele holandês que pintou o Brasil no século 17, o francês que retratou nossa natureza e nossa sociedade no século 19, ou também se pode considerar como tal o brasileiro que jamais saiu de seu canto e de repente descobriu seu País? ‘‘A própria Tarsila do Amaral teve de ir a Paris para só depois descobrir seu País em uma viagem a Minas Gerais’’, lembra. Dessa forma, ele introduz não apenas a questão do tempo, mas a da distância física e psicológica em sua abordagem. ‘‘Em suma, o ‘Olhar Distante’ é também aquele que os brasileiros dirigem para a sua história, mesmo a recente’’, desafia.