O Brasil atrás da porta
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de janeiro de 2019
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Durante muito tempo a narrativa da história das civilizações esteve vinculada aos grandes acontecimentos, aos grandes feitos vinculados ao exercício do poder. Os pequenos detalhes do cotidiano, da vida comum e da vida privada, não eram considerados componentes da história.
A partir da década de 1970, historiadores começaram olhar para um panorama mais amplo. Um olhar diferenciado dos padrões. Um olhar para compor uma nova narrativa histórica que ficou conhecida como "nouvelle histoire" (nova história). E novas gerações de historiadores multiplicaram as possibilidades da narrativa histórica a partir de novos olhares.

A grande popularização desse novo olhar sobre a história aconteceu quando os historiadores franceses Philippe Ariès e George Duby organizaram a coleção "História da Vida Privada". A obra, dividida em cinco volumes, reunia textos de dezenas de pesquisadores e historiadores europeus sobre como as pessoas viviam em épocas passadas, do Império Romano ao Século 20.
O interesse não estava nos grandes acontecimentos históricos da vida pública, mas nos acontecimentos da intimidade da vida privada. O objetivo era retratar o cotidiano. Coisas simples como o que as pessoas comiam em determinada época, como se vestiam, onde moravam, como se casavam, como viviam entre quatro paredes, de que forma criavam os filhos, que utensílios utilizavam, como se relacionavam com outras pessoas, como se relacionavam como o meio ambiente, como curavam doenças, como festejavam e como morriam.
Essa nova abordagem influenciou historiadores de todo o mundo. No Brasil, em 1997, chegou às livrarias "História da Vida Privada no Brasil", coleção de quatro volumes dirigida pelo historiador paulista Fernando A. Novaes. Lançado pela editora Companhia das Letras, a coleção seguia os padrões idealizados por Philippe Ariès e George Duby em "História da Vida Privada".
Com textos de dezenas de historiadores e pesquisadores brasileiros, a coleção apresentava elementos do cotidiano da vida em solo nacional, do início da colonização portuguesa ao século 20. Marco na historiografia brasileira contemporânea, a coleção recebe sua primeira reedição após 20 anos. A diferença está no fato de ser uma edição econômica, com preços mais acessíveis sem iconografia. O primeiro volume acaba de chegar às livrarias lançado pela mesma editora.
"História da Vida Privada no Brasil - Volume 1 - Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa", organizado pela historiadora Laura de Mello e Souza, retrata os três primeiros séculos da colonização portuguesa. Da chegada dos primeiros portugueses até a instalação da corte de Dom João VI na cidade do Rio de Janeiro. O enfoque está em o que as pessoas comiam, como comiam, onde dormiam, hábitos de higiene, como noivavam e casavam, que educação era praticada, a relação com escravos negros e indígenas, enfim, o que acontecia entre quatro paredes quando não havia paredes, apenas redes.
No universo familiar, por exemplo, no Brasil da época colonial, parte significativa dos domicílios não correspondia ao padrão moral de papai, mamãe, filhinhos e escravos. A família também era constituída pela diversidade. A historiadora Leila M. Algrani descreve esse contexto com as seguintes palavras: "Por vezes encontramos domicílios compostos de padres com suas escravas, concubinas e afilhadas, ou então comerciantes solteiros com seus caixeiros. Em alguns domicílios verificamos a presença de mulheres com seus filhos, porém sem maridos; também nos deparamos com situações em que um casal de cônjuges e a concubina do marido viviam sob o mesmo teto. Isso sem falar nos filhos naturais e ilegítimos que muitas vezes eram criados com os legítimos. Tantas foram as formas que a família colonial assumiu, que a historiografia recente tem explorado em detalhes suas origens e o caráter das uniões, enfatizando-se a multiplicidade e especificações em função das características regionais da colonização e da estratificação social dos indivíduos."
Ao longo de 2019, a editora pretende lançar os outros volumes da coleção, compreendendo: "Volume 2 - Império: A Corte e a Modernidade Nacional", organizado por Luiz Felipe de Alencastro; "Volume 3 - Repúbica: Da Belle Époque à Era do Rádio", organizado por Nicolau Sevcenko; "Volume 4 - Contrastes da Intimidade Contemporânea", organizado por Lilian Moritz Schwarcz.
Fragmento:
"Se a mulher desempenhou em todas as civilizações o papel de provedora de alimentos da família e de responsável pela organização doméstica, nos primeiros tempos da colonização, em virtude de mulheres brancas, as índias assumiram seu lugar, ensinando a socar o milho, a preparar a mandioca, a trançar as fibras, a fazer redes e a moldar o barro. Nos século subsequentes, as portuguesas uniram-se a elas para comandar as grandes vivendas rurais e tiveram como aliadas as escravas negras."
(Fragmento de "História da Vida Privada no Brasil - Volume 1 - Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa")

Serviço:
"História da Vida Privada no Brasil - Volume 1 - Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa"
Coordenação da Coleção - Fernando A. Novas
Organização do Volume - Laura de Mello e Souza
Autores - Laura de Mello e Souza, Leila Mezan Algranti, Luiz Mott, Ronaldo Vainfas, Mary del Priore, Luis Villalta e István Jancsó
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 424
Quanto - R$ 44,90


