O bom jogo de Hollywood
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de dezembro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Sem querer, ao sabor das disponibilidades ou somente executando estratégias de lançamento, no Brasil volta e meia a dobradinha distribuidor-exibidor fornece ao crítico, de uma só vez, elementos preciosos para uma avaliação de comportamento da segunda maior indústria de filmes do mundo - a Índia, com folga, detém a hegemonia. Jogo Duro, que entra hoje em cartaz em Curitiba (veja programação de cinema na página 4) se não chega a ser diversão independente trafegando na contra-mão da mainstream, pelo menos é um policial dirigido com a perícia de quem conhece.
No cinema de entretenimento já não mais se repara no nome do diretor. São tantos os milhões investidos nos grandes filmes que a influência dos produtores está cada vez mais abrangente. Vivem respirando pesado na nuca dos diretores, impondo ingredientes para assegurar um êxito que signifique afinal o retorno das fábulas que gastaram. Muito menos importa a qualidade dos roteiros, uma vez que o segredo está depositado no espetáculo de aparatosos efeitos especiais. O resultado são filmes irritantemente parecidos e portanto menos dignos de atenção de espectadores mais inquietos. É por isso que a mão de um diretor de qualidade sempre será notada. Sobretudo quando trabalha sobre um roteiro inteligente. É o que acontece com este sólido policial em que estão reunidos os talentos de realizador veterano, John Frankenheimer, e de um jovem roteirista, Ehren Kruger, visivelmente preocupado em manter a história em linha de coesão.
Em seus 40 anos de carreira, Frankenheimer dirigiu filmes muito bons (Sob o Domínio do Mal, O Segundo Rosto), bons (O Homem de Kiev, O Homem de Alcatraz), apenas regulares (O Trem, Grand Prix e o recente Ronin) mas nunca detestáveis. Visto num primeiro momento em Hollywood como a melhor promessa vinda da geração formada pela tevê nos anos 50 - Sidney Lumet, Arthur Penn -, construiu uma filmografia que não se pode chamar inovadora. Mas aos 70 anos, pode-se dizer dele, sem sustos, que é um dos mais confiáveis artesãos ainda em atividade no cinema, alguém que conhece tudo do ofício, particularmente o que se refere à ação e ao suspense. Sem desprezar as implicações humanas, é bom acrescentar.
Jogo Duro tem uma estrutura clássica. Rudy (Bem Affleck) é um presidiário, ladrão de carros, que cumpriu pena e agora está de volta à liberdade. Ele quer apenas apagar o passado criminoso e ficar com Ashley (Charlize Theron), a namorada por correspondência do amigo que morreu durante uma briga na prisão. Mas há complicações: o falecido trabalhava num cassino, e Gabriel (Gary Sinise), violento irmão da garota, pensa que Rudy é Nick, e obriga o rapaz a planejar e executar um assalto ao local. Tudo o que mais ocorre a partir desta idéia tem a lógica de uma equação e resulta, além disso, em material muito divertido. O tal cassino na mira dos ladrões pertence a uma tribo de índios do norte dos Estados Unidos, localizado mais precisamente em meio a um gelado nada no estado de Michigan. O golpe afinal acontece no dia de Natal, com a quadrilha fantasiada de Papai Noel. Toques de humor preciso enriquecem a narrativa, de quebra enriquecida com um desfecho inesperado.
Uma ou outra gordurinha cortada aqui e ali teria efeito ainda mais positivo. A sequência do assalto ao cassino poderia ser mais enxuta e menos faiscante: excessos por conta da citada ambição de produtores, a inchar os apelos visuais e assegurar o impacto mercantil. São esses minutos que sobram em tantos filmes americanos nos últimos tempos. Mas Jogo Duro sobrevive honrosamente aos fogos de artifício. Entre outras virtudes, graças a uma Charlize Theron em grande forma. Vista em O Advogado do Diabo, As Regras da Vida e Celebrity, é uma das raras atrizes contemporâneas a recuperar e atualizar um certo perfil de diva hollywoodiana, sem deixar de ser eficaz como intérprete.


