O bom e velho Jorge Ben (Jor)
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terça-feira, 28 de outubro de 1997
Paulo Vieira Agência Folha 
Arquivo FolhaJorge Ben Jor: Acho que estou na música porque nunca estacionei em cimaSe a moda pega, pode ser a redenção da MPB. O novo disco de Jorge Ben Jor, Músicas para Tocar em Elevador, além de não justificar seu nome, recupera o velho Jorge Ben, autor que produziu alguns clássicos do sambalanço dos anos 60 e 70 e vinha sendo sepultado pelo seu sucessor, Ben Jor.
A receita foi simples: o produtor Jorge Davidson colocou 12 intérpretes diferentes para regravar 12 temas de Ben, com liberdade de escolha de repertório. Eles se lançaram então em Mas que Nada (1963), Charles Anjo 45 e Bebete Vãobora (1969), Charles Jr. e Domênica Domingava... (1970), Quem Cochicha o Rabo Espicha (1972) e O Namorado da Viúva (1974), entre outros. Necas de material dos anos 80 ou 90.
Na que lhe foi dado escolher, Jor reeditou Homo Sapiens (1995) e cravou duas inéditas com sabor de W/Brasil - elas acabam validando o disco como de carreira.
Satisfeito com o resultado, o homenageado reconhece que sua participação não foi lá muito acentuada. O projeto não é meu, é todo do Davidson, que é um grande colecionador de meus discos, que eu não tenho mais.
Ben Jor também não indicou os intérpretes, que vão de Fernanda Abreu e Skank, que já o haviam gravado, a Ultraje a Rigor e Cidade Negra. Ficaram de fora velhos tributários como Caetano Veloso (que gravou nos anos 70 Quem Cochicha..., Jorge de Capadócia e Olha o Menino), Marisa Monte (Balança Pema) e Tim Maia.
Mais e mais Um segundo songbook informal não está descartado para 1998. Ben Jor gostaria de ver Paula Toller cantando uma de suas músicas, assim como alguns estrangeiros, que já revelaram afinidades. Tem o Jamiroquai, o Becker (Beck) e o Artur (Arto) Lindsay.
Eu acho que minha obra ainda não vale um songbook, ela não está completa. Se isso for feito, eu não quero que seja sofisticado, quero uma coisa popular, que vá para a escola. Aí entrariam todas as músicas, desde o começo. São músicas infantis, mas líricas, têm uma tendência rica.
Nessa revisão de sua obra, ficaram de fora algumas das figuras históricas que viraram músicas com Ben. Casos de São Tomás de Aquino, Hermes Trimegisto, Zumbi, Classius Clay. A exceção é o médico suíço Theophrastus Bombastus von Hohenheim, (1493-1541), o Paracelso, considerado pai da medicina hermética, explicitamente citado na regravação de O Homem da Gravata Florida, e o bicheiro da Tijuca Charles, o Anjo 45. Ben Jor diz que continua interessado em assuntos como alquimia e nas idéias do líder líbio Muamar Gadafi.
Mas suas novas letras, que ele classifica de popularíssimas, hoje dão recados para amigos, como Alfredin, que se enroscou com uma baranga. Minhas letras têm histórias, parecem fáceis, mas dá para fazer pensar.
Reconhece que os intérpretes o renovaram. Ele se surpreendeu em algumas faixas, não só pela antiguidade da composição, mas pelas leituras. A principal surpresa foi Por Causa de Você Menina, que eu nunca mais cantei. E a batida, jungle, que estava tocando muito na Europa. Esperava que a Fernandinha Abreu viesse funk ou ao menos charm.
Aos 34 anos de carreira, iniciados com Samba Esquema Novo, em que pronunciava a palavra você como voxê, Ben Jor se permite uma reflexão. Acho que estou na música porque nunca estacionei em cima. Fui considerado primeiro cantor jovem a fazer sucesso, quando entrei no estúdio estava no Exército, não sabia o que era sucesso. Eu poderia estar no mesmo estilo. Por gostar de ritmo, procurei progredir mais.


