O bom
cinema social
inglês
Após um início dominado por uma sucessão de imagens pouco otimistas, numa espécie de nauseante decomposição social, política e afetiva, o Festival de Cannes oferece momentos em que é possível confirmar que a vida vale a pena. Mesmo que o drama ainda se espalhe por todos os lados.
Descoberto pela Semana da Crítica com o filme ‘‘Kes’’, em 1970, o inglês Ken Loach passou pela Quinzena dos Realizadores em 72 com ‘‘Family Life’’, antes de se tornar um habitué da competição oficial. Por duas vezes já obteve o Prêmio Especial do Júri: em 90, com ‘‘Hiden Agenda’’ (Agenda Escondida), um drama de espionagem volta e meia exibido pelo Telecine, em 93 com ‘‘Raining Stones’’. Selecionado em 95 com ‘‘Terra e Liberdade’’, Loach agora está de volta à corrida pela Palma com ‘‘My Name is Joe’’. E em território proletário, sua especialidade. O filme é a epopéia amorosa de um ex-alcoólatra, que se recupera vivendo aqui e ali de biscates e orientando aquele que é conhecido como o ‘‘pior time de futebol de Glasgow’’. Ele conhece uma assistente social e os dois acabam tentando um romance, apesar das diferenças e da indisponibilidade afetiva causada por relacionamentos frustrados.
Nesta love story em que Koach mescla, na medida justa, crítica social, análise psicológica e humor, Joe (Peter Mullan, com perfil de premiação), além de viver sua própria vida com as dificuldades que ela apresenta, ainda se coloca como protetor de um de seus jogadores, sempre no limite com os traficantes de droga. Droga, aliás, que tem sido tema constante na maioria dos filmes aqui presentes.
‘‘My Name is Joe’’ não representa novidade na carreira de Loach. Mas é a volta aos domínios que ele conhece bem - o cinema social bem-feito, bem contado, bem amarrado como peça de dramaturgia. Após a projeção, durante a coletiva e coerente como de hábito, o diretor ironizou o momento de euforia vivido pelos ingleses em geral, em lua-de-mel principalmente com os novos rumos da economia manobrados pelo primeiro-ministro Tony Blair, um político apenas ocupado com o business. Para ele, é apenas uma questão de tempo a ‘‘tatcherização’’ do governo. Os trabalhistas de Blair são, no fundo, os conservadores de Tatcher.
Momento de absoluta descontração esportiva, ainda durante a entrevista. Numa das sequências muito divertidas do filme, ‘‘o pior time de futebol de Glasgow’’ rouba um jogo de camisas para a próxima ‘‘pelada’’. Quando entram em campo, os jogadores estão com o uniforme do Brasil, as camisas verde-amarelas da seleção de 70. Como nosso primeiro adversário na Copa, a menos de um mês, é a própria Escócia, perguntei se havia alguma segunda intenção em nos mostrar tão ruins assim. ‘‘Foi apenas uma homenagem. Acho que vai ser um jogo duro e difícil para os dois lados. Mas espero que o Brasil jogue como o time do filme’’, respondeu sorrindo. (C.E.L.J.)

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