Não contente em cantar sua vida, B.B. King decidiu contá-la em livro. Afinal, o que é o blues se não o direito adquirido pelo bluesman, via sofrimento, de poder expressar, em sons e palavras, o que acha do mundo e de si mesmo? Pois é exatamente o que ele faz em ‘‘B.B. King: Corpo e Alma do Blues’’ (Ática, 272 págs. R$ 29,90), uma autobiografia escrita em parceria com David Ritz (que deu o molde final ao texto a partir de entrevistas). É um belo livro.
B.B.King estará em São Paulo na próxima segunda-feira, no Ática Shopping Cultural (Pedroso de Morais, 858, 3.º andar), a partir das 17 horas - quem sabe, até com Lucille a seu lado - trocando as palhetas pela caneta para lançar essas memórias e autografar o livro. No domingo, ele faz show no Bourbon Street (Rua Chanés, 127, São Paulo).
O retrato do artista é dos mais tocantes e sincero. ‘‘Esse livro é um espaço para eu parar e olhar quem fui e o que sou agora’’, explica King. Ele não decepciona: com o lirismo das músicas que canta, o bluesman abre seu coração para o leitor, revela suas mágoas sem arrogância (em especial, pelo ostracismo a que foi relegado com a chegada do rock-and-roll ‘‘Ninguém percebe que é o rhythm and blues dos brancos’’, avisa -, o desprezo dos críticos que tratam o blues como uma arte menor, caipira e inferior ao jazz, que King, aliás, traz com raro talento em sua guitarra), narra seus amores (o sexo é uma constante em suas lembranças) e fraquezas (até mesmo uma inusitada gagueira, herdada do avô), em suma, é B.B. King. Só que, em vez de Lucille, ele usa o gravador de Ritz.
De quebra, o livro, como não podia deixar de ser, é uma história do blues. ‘‘Uma música simples, como eu sou um homem simples, não há ciência no blues; não se pode compô-lo em partes como a matemática; o blues é um mistério; e os mistérios nunca são tão simples como parecem’’, anota King. Assim como ele. Ou melhor, ‘‘Corpo e Alma’’ ajuda-nos a tentar entender algo dessa sua magia: o nascimento, em 1925, numa vilarejo às margens do Lago Blue; a primeira visão, celestial, de uma guitarra (‘‘Acaricio a madeira. Delicadamente, bato os dedos nela. Sinto as cordas. É bom. É mágico’’); a pobreza e a segregação nos tempos em que era trabalhador em um campo de algodão (que descreve, no entanto, com carinho); a fuga para Memphis, para tocar blues; etc. Tudo o que já sabíamos, mas, agora, com o tom inconfundível de sua voz.
E falando nisso: ‘‘Com o tempo, fui procurando ligar minha voz à da guitarra, da melhor maneira possível, mais tarde, ao me dedicar à arte do blues, descobri que não podia fazer as duas coisas ao mesmo tempo’’, salienta. ‘‘Assim, solava, cantava e um parava quando o outro começava; dessa maneira eu criava uma continuidade, não um conflito, uma roda girando: ambos os sons - guitarra e voz saíam de mim, mas de partes diversas da minha alma’’, diz, numa das muitas passagens fundamentais dessas memórias.
Em que os pontos fortes são sua guitarra e as mulheres. ‘‘Gosto de ver minha guitarra como uma mulher, gosto de vê-la como alguém por quem vale a pena lutar e até morrer, gosto que tenha nome e personalidade’’, afirma. ‘‘Para dizer a verdade, desde que estiquei um arame num cabo de vassoura é Lucille que procuro quando preciso de conforto e afeto’’, confessa. Nas últimas páginas, o seu testamento: ‘‘Quando penso na morte, tenho três preferências: morrer dormindo, abraçado a Lucille em cima do palco ou fazendo amor com uma linda mulher’’.

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