O blues enfumaçado de Edvaldo Santana
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terça-feira, 26 de outubro de 1999
por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 27 (AE) - Tom Zé destaca a "goela profana" do cantor Edvaldo Santana, cantor de olhar aguçado e andar meio preguiçoso que surgiu na improvável São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo. É verdade: impossível não notar seu registro vocal enfumaçado, sua levada bluesy.
Mas o que é realmente impossível deixar de notar é que Santana já tem mais de duas décadas de estrada e, apesar de tão notado, é bem menos celebrado do que deveria. Talvez seja chegada a hora de inverter essa lógica. Edvaldo Santana (Tom Brasil Estúdio) é o disco mais maduro da carreira do cantor de São Miguel, aquele que mais lhe abre possibilidades - sem fazer concessões à popularização.
Edvaldo assume sua porção de bluesman de periferia, sem descuidar do trato com a palavra. Mas afirma principalmente sua condição de cronista de subúrbio, com um olhar privilegiado, de dentro da coisa. Já na abertura, "Samba de Trem" (com um inspirado solo de trombone de Bocatto), vê-se essa disposição. "De Trinidad, quando o trem tá pra chegar/Do Itaim dá pra ver que já vem cheio."
O disco tem boas parcerias, bem adequadas à condição de cantor popular de Edvaldo - condição que acontece à revelia de sua vontade. Ele sabe o que é um ponto disputado a navalhadas. Vive no coração da tormenta. Mas também tem senso de humor. "Acontece que os índios já haviam descoberto as índias", diz, em Cabral, Gagarin e Bill Gates (com Ademir Assunção).
Ele ainda musicou um magnífico poema de Paulo Leminski, "Dor Elegante". É um grande compositor paulistano, ao lado de Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. "Quando fico longe um pouco, parece até que nem saí", canta, em Paulistanóide. De fato, não nasceu para fazer teste.


