Ali Farka Touré não nasceu no Delta do Mississipi, nasceu numa aldeia africana chamada Nianfunké, na região do rio Tiger, em Mali. Ele teve 11 filhos, talento de guitarrista comparado ao de John Lee Hooker, mas não cultivava só a música. Cultivava a terra, usava o dinheiro que ganhava com os discos para comprar máquinas agrícolas e não fazia questão de se apresentar nos melhores palcos do mundo, embora fosse convidado. Ele brilhava fazendo o melhor afro-blues da Terra, guitarra temperada com percussão africana. Seu canto, muitas vezes entoado na língua nativa, traz o lamento do Mali, ainda mais profundo do que o do sul dos Estados Unidos por uma razão: é canto matriz, de raiz genuína.
Um dia ganhei de um amigo jornalista, e grande conhecedor de música, um disco de Ali Farka Touré. Era ''Talking Timbuktu'' - isso mesmo, vamos falar em africano - que foi produzido em 1994 por Ry Cooder, um dos ouvidos mais sensíveis da América. O álbum nunca mais deixou de ser ''meu disco de cabeceira''. Se tivesse que escolher apenas três CDs para levar a Marte - sem chance de ouvir mais nada por lá - , um deles seria, sem dúvida, ''Talking Timbuktu''. Mas Ali produziu muito mais. Seu primeiro álbum foi gravado em 1986 e leva seu nome ''Ali Farka Touré''. Não precisava mesmo mais nada.
Nos anos 90, seu brilho ganhou intensidade no ocidente. Os orixás o abençoaram quando gravou ''Nianfuké'' em 1999, considerado pelos críticos o ''melhor disco de World Music dos anos 90.'' World Music? Para mim é música africana para ser ouvida até nas estrelas. Seu último disco é de 2005 e chama-se ''In the Hearth of the Moon'', foi gravado em parceria com outro músico do Mali, Toumani Diabaté.
Touré enche o coração de seus ouvintes com lamentos, enche os corações de blues, enche nossos ouvidos com a misteriosa profundidade da África, um continente de primeira grandeza. Mãe África da paisagem soberba - hoje devastada - dos grandes animais quase extintos, de um povo único, do talento solar que tempera a música de Ali Farka, que só podia ter nascido em Nianfunké, na região do Saara, próximo ao rio Tiger. Ele levava a estrela que brilhou em Tóquio, em Paris, no Mississipi. Para mim, sua música será sempre benção. Suingue e originalidade na veia aberta do afro-blues.

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