O novelista do horror gótico Stephen King se vê como ‘‘o equivalente literário a um Big Mac com fritas’’, que sabe o que o mundo quer e como saciar seu apetite.
King, um gênio em tornar nossos piores pesadelos em marketing de massa, tem produzido seus livros arrepiadores de espinhas em uma média de um e meio por ano pelo último quarto de século. Ele ama assustar os leitores por todo o mundo que em milhões consumiram clássicos de horror como ‘‘Misery’’ (‘‘Louca Obsessão’’), ‘‘Carrie’’ (‘‘Carrie, a Estranha’’) e ‘‘The Shining’’ (‘‘O Iluminado’’).
A linha de produção de ‘‘The Master of Ooze’’ (‘‘O Mestre de Ooze’’) não mostra sinal de decadência em relação a seu último - ‘‘Bag of Bones’’ (‘‘Saco de Ossos’’) - que ironicamente conta a história de um novelista que sofre de um bloqueio para escrever.
King, um recluso notório, emergiu de seu esconderijo de Meine, na Nova Inglaterra, para publicar o livro em sua primeira visita à Inglaterra em quase 20 anos.
Um dos mais bem-sucedidos autores do mundo provou ser uma figura humana e eloquente que persegue seu ofício com grande profissionalismo mas que não foi atingido pela pretensão literária. ‘‘Estou exportando pequenos pedaços da América. Não há um escritor mais americano do que eu’’, ele disse. ‘‘Ei, talvez eu seja o equivalente literário do Big Mac.’’ Sua dieta literária de fast food até agora tem sido engolida por pelo menos 35 milhões de leitores em mais de 50 países.
‘‘Eu tenho 51 anos. Escrevo ficção popular’’, é a descrição do emprego deste altamente famoso autor que vendeu sua primeira pequena história - ‘‘Eu era um arrombador de túmulos adolescente’’ - para um fã de histórias em quadrinhos quando ele tinha 18 anos.
Acordando às oito horas toda manhã, King produz 2 mil palavras por dia. Galões de chá são consumidos no processo. Escrever tem sido muito mais difícil depois que ele largou o cigarro.
‘‘Demora mais tempo para eu produzir estas páginas do que quando eu tinha 26 anos. Não sei se é porque estou ficando melhor ou se porque estou começando a ficar velho ou senil’’, ele disse.
King, uma figura magra e desalinhada com jeans largo, é uma verdadeira criança dos anos 60 que ainda não consegue acreditar em sua sorte.
Ele liga a si mesmo com contemporâneos como James Cameron, diretor do filme de sucesso ‘‘Titanic’’, e o guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards - ‘‘Cara, há muitas histórias difíceis naquele rosto’’.
‘‘Nós somos as pessoas que nossa geração deixou para trás para tomar conta do playground. As pessoas envelhecem e dizem que têm que arranjar empregos de verdade, relacionamentos reais e usar roupas de três peças. Eles dizem para caras como eu - Você ficou para trás para brincar para nós. Basicamente é o melhor emprego do mundo’’, disse o autor que admite com orgulho que sua idade mental varia entre os 7 e os 51 anos. Hollywood sempre teve grandes casos de amor com King. Mais de 20 dos seus livros e contos foram filmados.
O próprio King é um ardoroso fã do cinema, mas não gosta de escrever roteiros: ‘‘Eu acho que escrever filmes requer menos talento do que escrever livros - e cá entre nós - é verdade.’’
Ele não procura grandes sucessos de bilheteria sempre. ‘‘Quando vendo um livro para o cinema, é com um espírito de curiosidade para ver o que sairá dele.’’ Ele escolhe sem hesitar ‘‘The Shawshank Redemption’’ (‘‘Sonho de Liberdade’’), uma história de prisão que tem como atores principais Morgan Freeman e Tim Robins, como seu favorito. Jack Nicholson estrelou na memorável versão do filme de terror ‘‘O Iluminado’’, que muitos vêem como um clássico do celulóide. King é mais rigoroso: ‘‘Eu sempre senti que a versão de Stanley Kubrick para ‘O Iluminado’ caiu na categoria de uma falha realmente interessante.’’
Os repórteres que finalmente conheceram King o bombardearam com perguntas sobre que mente doente ele deve ter e que tipo de imaginação poderia produzir tal visão apocalítica de um mundo de pesadelos. Ele é o primeiro a admitir que há um lado ‘‘Jekyll e Hyde’’ em seu caráter: ‘‘Há a vida normal de família e há o homem que escreve histórias. Se eu acho que escrevi alguma coisa que irá assustar muito as pessoas, fico deliciado’’, ele admite com um sorriso.
Sua esposa e namorada do colégio, Tabitha, ressuscitou seu manuscrito de ‘‘Carrie’’, a história de uma garota paranormal, depois que King a havia esquecido. Uma vez que encontrou uma editora, a saga o colocou na estrada para o sucesso multimilionário.
A próxima coisa na linha de produção de King é uma série de quatro novelas intituladas ‘‘Por que estamos no Vietn㒒 que olha para a terrível influência do conflito nas mentes dos americanos. ‘‘A América nunca realmente deixou o Vietnã assim como nós nunca resolvemos essa experiência em nossas cabeças e corações’’, ele disse.
King insiste que não tem mais pesadelos do que qualquer outra pessoa. Ele rejeita o esteriótipo do escritor louco e possuído, trancado em seu escritório com uma imaginação torta. Com um sorriso contorcido, ele insiste: ‘‘Não tenho um plano de jogo. Apenas escrevo histórias. Todos gostamos de terror porque gostamos de ser assustados. Nós gostamos de terror pelo mesmo motivo pelo qual gostamos de montanhas-russas. Gosto de pensar que há conteúdos profundos em meus livros. Posso lidar com vocês um por um. Multidões nos cinemas são um pouco mais difíceis.’’
Ele pensa que os livros de horror estão entre os mais analisados do mundo da literatura - mas não há dúvidas sobre o feitiço que lançam sobre os leitores. ‘‘Com a ficção de horror, nós estamos vivenciando nossas próprias mortes. É algo pelo qual todos teremos que passar. Temos que negociar com nossa mortalidade.’’

mockup