Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Tadeu era um garoto que tinha um sério problema. Sempre sonhava com uma multidão de monstros que apavoravam suas noites de sono. As noites eram, para ele, um verdadeiro tormento. Acordava sempre assustado, molhado de medo, atormentado por horríveis monstrengos.
Após muito sufoco, um menino chamado Nuno disse a Tadeu que os monstros metiam medo apenas nas pessoas que os detestavam. Sendo simpático com os monstros, fazendo-os rir, em pouco tempo procurariam outras pessoas para atormentar, pessoas que morressem de medo deles.
Tadeu seguiu o conselho de Nuno e passou a tratar bem seus monstros. Esforçou-se para gostar deles do mesmo modo como gostava das pessoas com quem convivia. Em pouco tempo os monstros desapareceram de seus sonhos. Suas noites se tornaram um lago de tranquilidade. A partir dessa experiência, Tadeu se tornou amigo de Nuno.
Um pouco mais velho que Tadeu, Nuno não era uma garoto normal. Quieto e solitário, nunca tinha uma novidade para contar. Toda vez que era indagado sobre qualquer coisa, sempre respondia, ‘‘sem novidades’’. Coisas aconteciam com todo mundo, menos com Nuno. Nada acontecia com ele, nunca havia novidades.
Conhecendo melhor o amigo, descobriu que por trás de sua solitária ausência de assunto, havia uma pessoa repleta de histórias fascinantes, fantásticas. Contos de raposas que engoliam patos vivos e depois enfrentavam sérios problemas para evacuar, histórias de peixes que faziam concursos de pesca de homens (procuravam puxar os anzóis para derrubar os pescadores na água), fábulas de malvados diabinhos que, procurando serem louvados em imagens sacras, convertem-se em santos através da arte, em especial a pintura.
Entre os vários contos narrados por Nuno a Tadeu num banco de praça está o drama dos avestruzes que procuram resolver a tragédia de serem sumariamente caçados e mortos pelos homens que desejam suas belas penas. Procurando uma solução para o fim do extermínio, as aves tentam, em primeiro lugar, utilizar uma antiga tática: enfiar a cabeça em buracos cavados na terra. A esperança era de que, não enxergando caçadores, eles simplesmente deixariam de existir, logo, não haveria caça nem mortes. Mas a tática não surtiu efeito, mesmo não vendo os caçadores, os avestruzes continuaram sendo assassinados.
Utilizando um exercício de lógica digno de Lewis Carroll, o narrador oferece uma possível solução. Em vez de enterrar a cabeça na terra, deveriam correr atrás dos caçadores e morder-lhes a bunda. Com a pele retirada, confeccionariam calcinhas e cuecas que se tornariam a grande moda entres os avestruzes. Graças às calcinhas e cuecas feitas de pele de caçadores, as grandes aves conquistam a paz e ficam livres da extinção.
Nas histórias narradas por Nuno, com humor e sensatez, Tadeu compreende a importância que os contos, fantásticos ou não, possuem em seu crescimento moral e lúdico. Até mesmo quando a primeira namorada de Nuno rouba os contos e a atenção que, até então, eram destinados somente a ele. Esse aprendizado o pequeno Tadeu tentará estender aos seus futuros filhos, a magia das histórias na construção do imaginário.
Antes que o texto termine, é bom lembrar: Tadeu, Nuno e suas histórias estão no livro ‘‘Nuno 100 Novidades’’ do escritor francês Pierre Gripari (1925-1990) lançado pela Editora Companhia das Letras. Vale a pena. Para crianças entre 8 e 80 anos.
Nuno 100 Novidades – De Pierre Gripari, ilustrações de Odilon Moraes, Editora Companhia das Letrinhas, 182 páginas, R$ 21,00.

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