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sábado, 09 de março de 2013
Ana Paula Nascimento<BR>Reportagem Local 
Firmando-se como uma das poucas galerias do interior do Brasil em franca atividade, a Galeria Bahiarte chega aos 40 anos de existência em pleno vapor. Sob o comando da marchand Ana Maria Barreto, 64 anos, a galeria é sinônimo de obras de arte de qualidade e bom gosto. Para comemorar a data, está sendo organizada para agosto uma exposição especial com trabalhos de aproximadamente 30 artistas que fazem parte dessa trajetória de sucesso, como Juarez Machado, Aldemir Martins (cuja família já cedeu um dos quadros da sua famosa série sobre gatos), Bianco e Carybé, entre outros.
Londrinense de coração e baiana de nascimento, Ana Maria não esconde a gratidão pela cidade e o orgulho de chegar até aqui. Lembra com nitidez quando aportou em Londrina, após longa viagem de carro da Bahia, com o marido João Barreto, neurocirurgião. Sem amigos na cidade, a primeira impressão causou desconforto: a terra vermelha não parecia tão amável quanto as areias mornas do Nordeste.
De família numerosa, Ana estranhou inicialmente a vida resumida a dois, mas isso durou pouco tempo. Logo, novos amigos foram se formando e partiu do médico Heber Vargas, já falecido, a sugestão que ela montasse seu próprio negócio. E não demorou para que em uma visita à Bahia o seu grande amigo e renomado artista Carybé (1911-1997) lhe apoiasse a abrir uma galeria de arte. "Ele é o pai da Bahiarte. Deu muito apoio, me apresentou a seus amigos e tornou possível a realização desse sonho. Sempre gostei de arte e convivi com artistas, mas ele foi fundamental", destaca.
Com muito entusiasmo e obstinação, a galeria ganhou vida em uma casa de madeira reformada na Rua Espírito Santo (mesma rua onde ocupa há 15 anos seu ponto comercial próprio). Na inauguração, figuras importantes da cidade estavam presente, como o então prefeito de Londrina José Richa e João Milanez, fundador da Folha de Londrina. "O João Milanez também sempre me apoiou. Considerava a minha iniciativa importante e chegou a me oferecer um ano de propaganda gratuita na Folha", lembra.
Gradativamente o gosto por comprar quadros originais de artistas nacionais renomados foi sendo adquirido pelos londrinenses e as paredes antes nuas começaram a exibir obras de arte. Ela relembra, com bom humor: "Era engraçado isso. As minhas paredes sempre tiveram muitos quadros, principalmente porque ganhei muita coisa quando casei e as pessoas daqui estranhavam isso no começo". E acrescenta: "Sou da opinião que quadro não é objeto de decoração; é objeto de desejo, de paixão. Você tem que amar de paixão um quadro e só comprá-lo se for assim, mesmo em caso de investimento. Quadro não tem que combinar com o sofá".
Realizar exposições individuais e coletivas com a presença dos artistas também sempre fez parte do seu conceito de galeria. "Era uma forma de aproximar as pessoas dos artistas, tornar isso mais acessível", afirma.
Foi dela também a ideia de reformar o Museu de Arte de Londrina, repaginado em 1998 com o apoio de 16 artistas nacionais, que também doaram obras para o acervo permanente do museu. Além disso, uma biblioteca com livros sobre arte foi viabilizada e o sistema de climatização instalado. "Formamos um grupo de amigos do museu, que posteriormente acabou perdendo força, mas demos uma contribuição importante", reforça.
Como retribuição à cidade, ela também organiza há 12 anos o evento solidário que arrecada fundos para ajudar diversas entidades filantrópicas. Em maio, será realizada mais uma edição do evento, que desta vez irá beneficiar uma creche. A ação também acontece em Cascavel, cidade em que Ana Maria mantém grupo de clientes e amigos.
Em mais de seis décadas de vida, Ana acredita que a sua história daria um bom livro. Entre suas atividades, além de marchand, ela escreveu uma coluna sobre arte para a revista Vogue e teve um programa de televisão, pela MultiTV, em que chegou a entrevistar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador Geraldo Alckmin e Lily Marinho, a então viúva de Roberto Marinho, que permitiu pela primeira vez uma entrevista na sua própria casa. "Era um programa com gente interessante, que tinham coisas inteligentes para dizer, um bate-papo informal que eu sempre procurava levar para o campo das artes", pontua.
Outra história peculiar arquivada na sua memória é a de uma feirante que sonhava em ter um quadro da galeria e foi sorteada em uma rifa do evento solidário, que comprou com sacrifício. "Era uma obra do Juarez Machado e ela ficou feliz da vida", recorda a marchand, que também deu para a feirante um livro sobre o artista que há anos está radicado em Paris.
Esperançosa de que a cultura e a educação ganhem novo impulso no Brasil, ela reclama que a galeria ainda é pouco procurada pelas escolas para visitação. "Sinto o maior prazer quando posso falar dos artistas para as crianças e dos detalhes das obras. Aqui também é um local aberto a todos para a apreciação, a admiração simples de uma obra de arte. A arte precisa ser valorizada porque também é o registro histórico da cultura de um povo, de uma época", conclui.


