"O Beijo Hollywoodiano de Billy" esbarra na caricatura
São Paulo, 22 (AE) - A atividade dos ilusionistas do passado em Hollywood consistia em distorcer a dimensão de atos banais. Qualquer beijo americano tinha o efeito de uma explosão nuclear. Burt Lancaster beijando Deborah Kerr na praia, em "A Um Passo da Eternidade", valia por um ato sexual simulado e jogava para segundo plano o envolvimento da América na guerra. A incapacidade atual de seduzir o espectador com algo tão simples como rolar na areia é escandalosa. Prova recente desse fracasso é a comédia "O Beijo Hollywoodiano de Billy", cujo tema é justamente o esforço de Billy (Sean P. Haynes), um fotógrafo gay, em recriar os beijos famosos do cinema com garotos e uma simples Polaroid.
Seria interessante se o filme dirigido por Tommy OHaver tivesse a altura do clássico de Fred Zinnemann, rivalizando com seu modelo. Afinal, sua comédia pretende ser um libelo contra a "ditadura" heterossexual, que obriga o espectador gay a consumir melodramas convencionais. Mas "O Beijo Hollywoodiano de Billy", que tem pré-estréia amanhã (23) em São Paulo, esbarra na caricatura e vira um comentário paródico e algo sem graça sobre os grandes momentos românticos de Hollywood, recriados com despudorada falta de talento.
Dois ou três truques que salvam a comédia do desastre são repetidos ad nauseam (por exemplo, a contagem regressiva para os sonhos cinematográficos de Billy com o baixista loiro, supostamente hetero). O resto é tudo aquilo que você cansou de ver em filmes como "Priscilla, a Rainha do Deserto": quilos de paetê, bizarras drag queens e o infalível esquema garoto encontra garoto.
No caso, o garoto que Billy encontra ainda não saiu do armário. É uma espécie de Brad Pitt híbrido, indecifrável como um ornitorrinco e escorregadio como uma enguia. Para adaptar Gabriel (Brad Rowe) ao papel de herói romântico dos melodramas dos anos 50, Billy deve reduzir o objeto de sua adoração ao estereótipo consagrado por Hollywood. Poderia render uma crítica divertida sobre o poder da imagem virtual nos dias em que o mundo concreto parece cada vez mais distante do homo interneticus, mas a única sequência de sonho em que Billy quase cruza a fronteira da projeção (tentando entrar no remake do filme de Zinnemann) é desperdiçada.
A fonte é, claro, a comédia de Woody Allen, "A Rosa Púrpura do Cairo", em que uma dona de casa infeliz se refugia na sala de projeção e escapa do mundo real com o mocinho do filme. O original, desnecessário dizer, era bem melhor. Outra idéia jogada para o alto é a identificação da foto Polaroid com o mundo real de Billy, cinéfilo à procura de um final feliz para sua vida de gay solitário. O abuso da imagem congelada e fora de foco banaliza um achado, o d a imagem estática e desfocada como sinônimo da vida real, captada num segundo pelas lentes da Polaroid.
É fácil entender que esses raros momentos criativos da comédia de Tommy OHave tenham conquistado a seleta platéia do Sundance Festival. Difícil é aceitar "O Beijo Hollywoodiano de Billy" como crítica ao poder de manipulação da indústria cinematográfica americana. É apenas mais um produto dessa fábrica, uniformizado e com prazo de validade limitado.





