O beijo em movimento
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de junho de 2000
Francelino França De Londrina 
O surto de montagens da obra de Nelson Rodrigues, que se alastra pelo Brasil, não deixou imune a programação do Filo 2000. No palco do Cine-Teatro Ouro Verde, na segunda e terça-feira, o grupo mineiro 1º Ato, movimentou as obsessões rodriguianas com Beijo...nos olhos...na alma...na carne. O espetáculo intercala harmonicamente dança e teatro, mostrando a tendência da dança em alforriar os bailarinos das amarras do artificialismo.
O 1º Ato fez um mergulho coreográfico na obra do reaça de suspensórios e retirou o kitsch, o mau gosto, a cafonice e a morbidez e levou à cena um espetáculo plasticamente impecável. Esses elementos construtivos da obra rodriguiana e a inclinação para o excesso foram debastados em Beijo.... A coreografia bem-acabada, completamente envolvente, incursionou nos limites do correto, sem viagens delirantes.
Por vezes, O Beijo... tangenciou o escracho. A flexibilidade da linguagem de NR se transferiu para a flexibilidade da geografia do corpo. O diálogo sincopado correspondeu aos movimentos. Se o flashback foi o triunfo dramatúrgico de NR, em Beijo... essa linha do tempo foi diluída.
Os anos 50 estilizados baixaram no palco, muitos dos personagens rodriguianos estavam ali. Povoaram o palco o contínuo, a prostituta, a dona-de-casa, o vendedor de Chica Bom, a amante, a mulher traída, as irmãs desejando o mesmo homem. Sem a estranheza do universo de NR nesse espetáculo asséptico, muitos quadros mantiveram apenas uma ligação tênue com o autor.
O 1º Ato apresentou no Filo um bombom de licor, inserido num cenário encarnado e uma iluminação requintada. O espetáculo não é uma transposição literal do universo rodriguiano para o palco, recupera a atmosfera dos personagens.
Na dramaturgia de Nelson Rodrigues, os personagens se revelam falando. Uma característica instrínseca na obra de NR é que a sensualidade e sexualidade era sugerida, deixando ao espectador, dentro de seu universo, criar a cena. Em O Beijo, a opção recaiu pela exploração dessa sensualidade de forma escancarada. Sem o poder abrasador do verbo rodriguiano, o grupo desnudou o que era apenas intenção.
Na cena em que a atriz-bailarina clama Bezerra, me bate o que seria trágico se transformou em cômico, numa cena hilariante. A sensualidade dos ritmos brasileiros também foi incrivelmente ironizada na coreografia em que cada bailarina satiriza os requebros da mulher brasileira. A companhia mineira trouxe ao ao Ouro Verde o perfume do reacionário mais cultuado dos últimos tempos, em coreografias que dão apenas um beijo na cicatriz da universo rodriguianos, inesgotável e de infinitas facetas.


