O beato revolucionário
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domingo, 21 de setembro de 1997
Agência Estado 
DivulgaçãoJosé Wilker é Antônio Conselheiro, no filme Guerra de CanudosEle sempre conviveu com a morte. Quando era criança, viu várias pessoas de sua família serem executadas pelos rivais Araújo, de Quixeramombim, no Ceará. Há cem anos, no dia 22 de setembro de 1897, morria antes da tomada de Canudos. Seu corpo, retirado da cova, foi decapitado. E seus seguidores disseram então que ele morreu duas vezes.
Conselheiro, apelido de Antônio Vicente Mendes Maciel, é um dos personagens mais polêmicos da História do Brasil por ter fundado a centenária cidade de Arraial de Canudos, no sertão da Bahia, onde chegaram a morar cerca de 25 mil pessoas em 5.200 casas construídas em mutirão. Antônio Conselheiro morreu por causa de uma doença, aos 69 anos de idade, poucos dias antes da tomada de Canudos pelos homens comandados pelo general Machado Bittencourt, ministro da Guerra.
Nascido em 1828 em Quixeramombim, Conselheiro começou sua trajetória quando sua mulher fugiu com um policial. Passou, então, a percorrer o sul do Ceará, à procura dos dois, até que, uma noite, perseguido por alucinações, feriu um parente que havia lhe dado abrigo. A partir daí, penetrou no sertão mais distante e desapareceu. Dez anos depois, reapareceu no interior da Bahia, com as barbas longas, os cabelos nos ombros. Vestia um hábito azul de brim americano e carregava um bastão. Comia e dormia de favor e lia sempre dois livros: A Missão Abreviada e Horas Marianas.
Não demorou muito para que atraísse vários seguidores, interessados em suas palavras de tom revolucionário. Por onde passava, mais pessoas se juntavam ao grupo, principalmente colonos de fazendas. Os grandes latifundiários começaram a se queixar daquela figura mística que tirava os trabalhadores das terras para segui-lo.
Conselheiro declarava abertamente que era contra as medidas implantadas pela República, como o casamento civil, decorrente da separação entre Igreja e Estado, com a derrubada da monarquia e a criação de novos impostos em todos os níveis. O objetivo da fundação de Canudos era o isolamento daquelas pessoas, tornando-as imunes às novas regras impostas pelo sistema vigente.
Segundo J.C Ismael, especialista em História das Religiões, sua luta contra as tropas legalistas fez dele um herói entre os humildes, com um discurso no qual a piedade mística e o ódio ao governo mantiveram-se até o extermínio impiedoso da comunidade que criara.


