Para muita gente, arte é bicho-de-sete-cabeças ou então pobremente associada à decoração. Para simplificar e realinhar conceitos, a editora Ática acaba de lançar a coleção ''Por dentro da arte'', que conta com dois volumes ''Como e por que se faz arte'' e ''Os segredos da arte'', da inglesa Elizabeth Newbery, com tradução de Maria Anunciação Rodrigues.
Os livros não têm nada a ver com as publicações tradicionais que enfocam movimentos artísticos através de estilos e épocas, fazendo uma infindável viagem cronológica. A autora faz este passeio reunindo obras de todos os continentes de forma temática. Bons exemplos estão em ''Os segredos da arte''. No capítulo sobre o uso da cor estão lado a lado a gravura de um casamento indiano, de cerca de 1887, e uma tela de Mondrian, pintada no século 20. Ainda sobra espaço para as indefectíveis latas de sopa Campbell transformadas por Andy Warhol em pop art, nos anos 60.
Também sobre a cor, no módulo sobre tons quentes e frios, um coração de rosas vermelhas remete a um cartão do Dia dos Namorados (um signo ''caliente'' para a data que acaba de ser comemorada) ao lado do ''Retrato da mãe do artista'', pintado por James Whistler em cores sombrias, no ano distante de 1871. Cor e luz, texturas e formas, perspectiva e composição, tudo é enfocado de modo simples e didático, sem se tornar primário.
No volume ''Por que se faz arte'', a Elizabeth Newbery responde ao questionamento fazendo o mesmo jogo atemporal, aproximando obras de séculos passados com visões contemporâneas. Para ela, ''alguns artistas fazem pinturas e gravuras para contar histórias sobre o passado e o futuro...outros registram cenas do dia-a-dia ou mostram eventos importantes''. Também não desloca as peças publicitárias do contexto de arte citando criações feitas para ''nos convencer a comprar ou vender coisas''. Em resumo, o que a autora faz é apontar a arte como elemento que inunda o cotidiano desde tempos imemoriais, mostrando no mesmo capítulo um vaso ''gordo'' criado em Cnossos, cerca de 1450 a.C. e os volumes arquitetônicos de Oscar Niemeyer.
É preciso destacar que a arte e o design brasileiros figuram nos livros através das inserções feitas pela arte-educadora Béa Meira, que coordenou a edição nacional. Lasar Segall, Cândido Portinari, Flávio de Carvalho e outros nomes que engatilharam nosso modernismo aparecem com artistas contemporâneos como Leonilson e Jac Leirner, numa lista de 30 nomes verde-amarelos.
As obras ainda contam com glossários, para que o leitor desacostumado aos termos de uma linguagem especializada possa compreender o que é ''natureza morta'' sem pensar em devastações e queimadas. Elizabeth Newbery transforma o universo artístico num tema extremamente lúdico, apresentando texturas através das peles de um coelho fofinho ou de um casaco de couro esquecido num cabide. Com tanta criatividade, os livros podem ser lidos numa sentada, com direito a releituras para reavivar conceitos e funcionar como obras de consulta. A coleção é indicada para leitores entre 8 e 80 anos.
Serviço:''Coleção como se faz arte'' (''Os Segredos da arte'' e ''Como se faz arte''), de Elizabeth Newbery, tradução de Maria Anunciação Rodrigues. Editora Ática. 63 páginas. R$ 16,50 cada

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