Vania Toledo/DivulgaçãoChristiane Torloni: ‘‘Meus personagens precisam ser todos os anjos, todos os demônios, todos os monstros que vivem dentro de qualquer ser humano’’Christiane Torloni vive, atualmente, um dos mais belos momentos de sua carreira. No teatro, ela encena ‘‘Salom钒, a última sacerdotisa da era pagã. Em pouco mais de uma hora de espetáculo, ela leva a platéia ao êxtase, ao mergulhar, de corpo e alma, na essência da principal personagem de Oscar Wilde. ‘‘Salom钒 será encenada em Curitiba hoje e amanhã, no Teatro Guaíra.
Salomé ficou adormecida durante séculos para acordar em uma das mais emocionantes representações do teatro brasileiro. Revivida por Christiane Torloni (com direção de José Possi Neto), o espetáculo acontece em meio a um clima de magia, beleza e fascínio. Um cenário místico, com luzes que se refletem como estrelas e luas em um espelho d’ água, e sons que ecoam em uma noite perfumada, chegam a entorpecer a platéia.
Salomé é uma das peças mais instigantes dos clássicos teatrais. Escrita por Oscar Wilde em 1893, conta a história de uma mulher (Salomé, princesa da Judéia) que pediu a cabeça de João Batista, primo de Jesus Cristo, porque teve seu amor rejeitado por ele.
A história da sacerdotisa de Wilde, ainda que tenha sido escrita no século passado, trata de um tema atual porque retrata as emoções humanas, dentro de um texto que leva o público a mergulhar no mistério do amor que transcende a morte.
Salomé desperta nas pessoas um pouco dos mais profundos sentimentos humanos: sedução, paixão e morte. ‘‘Em pleno século 20 vemos que Salomé - morta em 72 d.C. - ainda tem herdeiras. De vez em quando os jornais não estampam suas manchetes com fotos de mulheres que, embora não cortem mais cabeças, castram seus amantes?’’ - pergunta Christiane Torloni, ao comentar sobre a peça que protagoniza, ao lado de Luís Melo, Tuca Andrada, Cláudia Schapirah, Caco Ciocler, Laís Galvão, Augusto Vieira e Luciano Quirino.
Um espetáculo que já foi visto por mais de 30 mil pessoas, Salomé estreou em São Paulo no dia 20 de fevereiro deste ano, ficou por longa temporada no Rio de Janeiro, passou por Porto Alegre, e agora é encenado em Curitiba. Outras capitais (Brasília, Belo Horizonte e Salvador) terão oportunidade de ver o espetáculo, onde foram investidos R$ 500 mil com patrocínio de um banco (Real) e apoio de uma companha aérea (Rio Sul), que possibilitaram a edição do que Christiane chama de subprodutos da peça: um portfólio que fala do espetáculo em si, da história de Salomé, com ensaio fotográfico de Vania Toledo, e um calendário ilustrado.
O portfólio de Salomé, segundo Christiane - que também é produtora da peça - é o primeiro do gênero na história do teatro brasileiro.
O projeto Não é de hoje que Christiane pensava em montar Salomé. É ela quem conta:
- Salomé vinha me cortejando há quase uma década. Nesse período recebi inúmeros convites para fazer não apenas a Salomé de Wilde, mas para fazer uma versão da Salomé da Bíblia. Pensando sempre no assunto, a decisão final, o ‘‘sim’’ definitivo, veio quando o Possi e eu estávamos pensando em fazer peças com temas semelhantes e de repente recebi um convite de um grupo brasileiro que estava montando ‘‘Salô Salom钒. Dias depois recebi um presente de uma prima que havia estado na França. Qual não foi minha surpresa ao abrir o presente e ver o livro ‘‘Salom钒 em sua versão original em francês.
Decisão tomada, foram apenas 11 semanas de ensaios, seguida pela estréia em São Paulo. Como diz Christiane, foi ‘‘um mergulho de cabeça em Salom钒. Um mergulho que parece ter dado à atriz um poder quase mágico de levar a platéia em sua ‘‘viagem’’ com a personagem de Wilde. Um espetáculo de movimentos e danças que embalam a imaginação levando a uma catarse coletiva. O que, aliás, Christiane considera ‘‘bárbaro’’, pois é um sinal muito claro de que as pessoas entendem a linguagem do espetáculo. É ela quem diz:
- Quando encenamos a peça em São Paulo, percebi que recebíamos grupos de 30 estudantes e até mais por noite. E uma coisa interessante: não eram apenas universitários. A grande maioria estava na faixa dos 12 a 15 anos. O público de ‘‘Salomé vai dos 10 aos 90 anos. Isso é importante porque estamos falando às pessoas. Estamos chegando até elas com nosso modo de sentir Salom钒.
A sedução Salomé é, antes de tudo, um bailado envolvente, que culmina na dança do ventre que Christiane faz como uma verdadeira sacerdotisa sedutora. Ela não apenas seduz Herodes, mas principalmente o público que parece ficar hipnotizado.
A proposta de Christiane é que ao representar Salomé ou qualquer outro personagem, eles possam tocar as pessoas: ‘‘Meus personagens precisam ser todos os anjos, todos os demônios, todos os monstros que vivem dentro de qualquer ser humano e eles possam vivê-los naquele momento através deles (personagens)’’ - enfatiza. É desse modo que ela vê o principal papel de qualquer ator. ‘‘Em cena a gente tem que criar um ciclo catártico para que as pessoas não saiam frustadas com aquele grito que eu não dei’’- diz Christiane.
Para ela, o ator tem que se doar com seus sentimentos para que as pessoas sintam que ele, naquele determinado momento, fez por elas aquilo que todos gostariam de fazer mas não podem, como pedir a cabeça de João Batista, por exemplo.
Não é sem razão que ‘‘Salom钒 é um espetáculo que, sem dúvida, consagra Christiane como uma das grandes damas do teatro brasileiro. Posição, aliás, conquistada por seu empenho e determinação em construir uma carreira centrada em seriedade e na montagem de personagens que ela diz ter dado o melhor de si. ‘‘Não se faz uma carreira de prestígio da noite para o dia’’ - enfatiza, ao afirmar que sua proposta é ‘‘doar-me por inteira para que eu o faça com a maior verdade de meus sentimentos’’.
Christine completa 21 anos de carreira e nesse tempo procurou sempre ‘‘tocar’’ as pessoas através de seus personagens. Para ela o ator é como um bailarino das emoções. E quanto mais velho ele vai ficando mais cavernas interiores vão se abrindo, o que o torna um ser humano cada vez maior.
Na verdade, Salomé desperta nas pessoas um sentimento quase metafísico, quando ela diz, no final da peça, que o mistério do amor é maior que o mistério da morte. E isto, no entender de Christiane, é o que o ser humano quer ouvir e acreditar. ‘‘Todos querem transcender a morte e o instrumento que as pessoas encontram é o amor’’.
A atriz acredita que esta é uma das razões do sucesso da peça. ‘‘Essa coisa transcendental que Wilde apresenta através de Salomé, dá esperança às pessoas. É sonho, é poesia, coisas que todo mundo precisa para continuar vivendo’’ - finaliza Christiane.
• Salomé - de Oscar Wilde. Direção de José Possi Neto. Com Christiane Torloni, Luís Melo, Tuca Andrada, Claudia Schapirah, Caco Ciocler. Hoje, às 21h e amanhã, às 19h, no Guairão. Ingressos: R$ 30,00 (platéia), R$ 25,00 (primeiro balcão), R$ 20,00 (segundo balcão).

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