CINEMA O azarão do Oscar Concorrendo em sete categorias, as chances de premiação de ‘‘As Regras da Vida’’ ficam por conta de Michael Caine e do roteiro adaptado ReproduçãoMichael Caine tem tudo para ganhar o Oscar de ator coadjuvante por seu trabalho em ‘‘As Regras da Vida’’ Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha2 Ninguém esperava tanto. A não ser, é claro, a produtora Miramax, que emplacou mais uma vez (vide ‘‘O Paciente Inglês’’) com o inconfundível ‘‘toque arrastão’’ dos irmãos Weinstein. Quando teve lançamento mundial na mostra competitiva do Festival de Veneza, há seis meses, ‘‘As Regras da Vida’’ (veja a programação de cinema na página 6) recebeu acolhida discreta, com moderada aprovação. Mas se o filme de Lasse Hallstrom não alcança status de obra-prima, também está longe de ser descartável e tem qualidades a descobrir. Depois do sucesso de ‘‘Minha Vida de Cachorro’’ (85) e ‘‘Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador’’(92), o sueco Hallstrom continua trabalhando em sua carreira americana e novamente investe no recorrente tema do rito de passagem à idade adulta. Desta vez com a colaboração do escritor John Irving, que durante 13 anos escreveu o roteiro a partir de seu best seller ‘‘The Cider House Rules’’ - há boas chances de premiação, categoria roteiro adaptado. A história, com toques à David Copperfield, gira em torno de um adolescente que cresce no isolamento de um orfanato do Maine, Nova Inglaterra, anos 30. Adequadamente chamado de Homer (Tobey Maguire, em papel recusado por Leonardo DiCaprio, que optou por ‘‘A Praia’’) e vivendo sob os cuidados e ensinamentos do dr. Larch (Michael Caine), médico que pratica abortos ilegais, o garoto logo vai empreender uma odisséia pessoal em busca de experiências e sentido para a vida. Às voltas com os altos e baixos do novo repertório de emoções, Homer aprende algumas lições quando suas idéias e princípios batem de frente com a dura realidade. Há o trabalho pesado colhendo maçãs, o convívio com os operários da ‘‘casa da cidra’’, o primeiro amor, a primeira desilusão. ‘‘As Regras da Vida’’ combina senso de humor, pathos e absurdo, de resto ingredientes cativos na literatura de Irving. Hallstrom tem mão firme para mesclar o bizarro, o cômico e o dramático, conduzindo uma narrativa que transcende os vários gêneros. Lembrando Dickens, o núcleo emotivo desta adaptação é correto, elegante. No mundo segundo Homer, tornar-se protagonista da própria vida significa antes perder-se num amor impossível nos braços da deusa Charlize Theron. Estranhos, os caminhos da Academia de Hollywood. O tema pouco palatável do aborto e a maneira franca como é tratado no filme não foram empecilho para ‘‘The Cider House Rules’’ obter as 7 nominações, inclusive para melhor filme. E quem tem tudo para garantir o prêmio de coadjuvante é o veterano Michael Caine. Em entrevista exclusiva à Folha no Festival de Veneza do ano passado, o ator resumiu assim seu personagem polêmico: ‘‘É um médico contraditório, o dr. Larch. Ele dirige um orfanato, pratica o aborto em jovens com gravidez indesejada e ao mesmo tempo acolhe carinhosamente crianças órfãs. Creio que o aborto é um problema pessoal das mulheres, sobre o qual somente elas podem decidir, mas sem provocar a auto-intervenção.’’